Opinião: Preciso confiar em quem pinta o cabelo – Denise Fraga


Nosso amigo Ricardo está ficando com cara de cantor de tango. Faz tempo que nos conhecemos, de quando em quando nos encontramos, mas, no nosso último jantar, eu não conseguia prestar atenção na conversa, tentando entender o que havia de errado com ele. Viemos envelhecendo juntos já faz bem uns vinte anos. Todos nós apresentamos as evidências disso em nossas peles, músculos, olhos, dentes, cabelos ou falta deles. Pois foi nos fartos cabelos de Ricardo que matei a charada do milongueiro daquela noite em nossa mesa.

Nosso amigo continua com os mesmos cabelos de vinte, quiçá trinta anos atrás. Herdou de seu pai um gene poderoso de ancestrais indígenas que, aos quase sessenta, mantêm seus cabelos totalmente negros. Acontece que seu rosto envelheceu como o de sua avó alemã, de pele branca e sensível, e agora Ricardo precisa carregar a verdadeira cor de seus cabelos com uma tintura mequetrefe feita no barbeiro da esquina.

Todo mundo jura que ele pinta o cabelo. Eu juro que não. Bem sei o constrangimento que seria para esta doce figura ver-se em tal situação. Um homem aberto, de olhos brilhantes, sem nenhuma vaidade e que balançou a cabeça dando risada quando eu lhe disse que talvez precisasse pintar o cabelo para parecer que não pintava o cabelo.

Seriam as mais autênticas luzes feitas na história. Luzes para auxiliar o tempo, que esqueceu de agir em suas madeixas, acabando por lhe dar aparência contrária ao que fez com a sua sabedoria. O homem sábio, claro, amplo e maduro, inacreditavelmente, está ficando com cara de picareta. Porque, que me desculpem os tingidos, mas, com todos os meus preconceitos ativados, ouso declarar que a maioria dos homens que insiste em esconder seus brancos começa a exalar um ligeiro ar de mentira. Não são como as mulheres, a quem os séculos já nos acostumaram a não ver rendidas ao envelhecimento natural. É mesmo um preconceito de minha parte, mas quando vejo homem de cabelo tingido preciso me esforçar para não suspeitar, quiçá injustamente, que tal mentira habite também a alma da sujeito. Parecem-me sempre estar escondendo algo nas costas, como pateticamente escondem os fios brancos de seus cabelos.

Depois do desfile de tinturas, botox e plásticas masculinas que vimos vencer a última eleição, ilustrando discursos igualmente maquiados, só me resta torcer para que pelo menos alguns deles tenham ancestrais com genes poderosos como os de meu amigo Ricardo que possam me acender uma chispa de esperança.


Fonte: Opinião

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