Ariano Suassuna • Me dê Sua Tristeza, Que Lhe Dou Minha Alegria


:: Território Conhecimento em 02/09/2017 11:19 ::

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íntegra ► https://youtu.be/klrD8B4dIlA

Participação Musical: Antônio José Madureira e Aglaia Costa
Fonte Original: UnBTV ► https://goo.gl/hr4DtD

Ano: 1997

playlist Ariano Suassuna ► https://goo.gl/XFw3xC

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Romance da Bela infanta

Chorava a infanta chorava na porta da camarinha
Perguntou-lhe o rei seu pai,porque choras filha minha?
Eu não choro senhor pai,se chorasse razão tinha
Todas eu vejo casadas, só a mim vejo sozinha.

Procurei no meu reinado filha quem te merecia
Só achei o conde Olário e esse já mulher havia
Ai meu rei pai de minh’alma, esse mesmo é que eu queria
Mande aqui chamar o conde pela vossa escravaria
Palavras não eram ditas, já o conde chegaria
E que a vossa majestade quer com minha senhoria?
Mando que mate a condessa pra casar com minha filha
E traga a cabeça dela nesta dourada bacia
Sai o conde por ali com tristeza em demasia
Ter que matar a mulher, e a mulher não merecia
A condessa que o esperava para abraça-lo corria
Com o filhinho nos braços já de longe bem ouvia
Sentaram-se os dois a mesa, nem um nem outro comia
As lágrimas eram tantas que pela mesa corriam
Porque choras seu conde, desafogue essa agonia
Me dê a sua tristeza que lhe dou a minha alegria
Ou te mandam pra batalha ou te mandam pra Turquia
Nem me mandam pra batalha nem me mandam pra Turquia
O rei manda que te mate, pra que case com sua filha
E quer a sua cabeça nessa dourada bacia
Não me mate senhor conde, um remédio haveria
Vou meter-me em um convento da ordem da freiraria
Lá guardarei castidade e a fé que te devia.
Como pode ser tal coisa condessa da minha vida
O rei manda que te mate pra casar com sua filha
E quer sua cabeça nessa dourada bacia
Deus que te perdoe meu senhor conde lá na hora da cotia
Me tragam aqui meu filho entranhas da minha vida
Deste sangue do meu peito, beberá por despedida
Bebe meu filhinho, bebe, este sangue de agonia
Hoje aqui ainda tens mãe que tanto bem te queria
Amanhã terás madrasta de mais alta fidalguia
Já ouço tocar o sino, ai meu Deus quem morreria?
Morreu foi a bela infanta, pela culpa que trazia
Descasar os bem casados, coisa que Deus não queria.

A donzela que foi à guerra

“Pregoadas são as guerras
Entre França e Aragão:
Ai de mim que já sou velho,
Não as posso vingar, não!
De sete filhas que tenho
Nenhuma é varão!.
” Responde a filha mais velha
Com toda a resolução:
“Venham armas e cavalo
Que eu serei filho varão.”
“Tendes os ombros muito altos
Filha, conhecer-vos-ão.”
“Venham armas bem pesadas,
Os ombros abaixarão.”
“Tendes os peitos muito altos
Filha, conhecer-vos-ão.”
“Venha gibão apertado,
Os peitos encolherão.”
“Tendes os olhos bem vivos
Filha, conhecer-vos-ão.”
“Quando passar pela armada
Porei os olhos no chão.”
“Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não.”
“Convidai-o vós, meu filho,
Para convosco feirar;
Pois se ele mulher for,
As fitas irá pegar.”
A donzela, por discreta,
Uma adaga foi comprar.
“Oh que bela adaga esta
Para com homens brigar!
Lindas fitas para damas:
Quem lhas pudera levar!”
“Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não.”
“Convidai-o vós, meu filho,
Para ir convosco ao pomar,
Pois se ele mulher for,
A maçã irá pegar.”
A donzela por discreta,
Uma pera foi pegar,
“Oh que bela pera esta
Para um homem cheirar!
Lindas maçãs ficam para damas
Quem lhas pudera levar!”
“Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Os olhos do conde Daros
São de mulher de homem não.”
“Convidai-o vós, meu filho,
Para convosco nadar;
Pois se ele mulher for
Ao convite vai faltar.
“A donzela, por discreta,
Começou-se a desnudar…

Traz-lhe o seu paje uma carta,
Pôs-se a ler, pôs-se a chorar;
“Notícias me chegam agora,
Novas de grande pesar;
De que minha mãe é morta,
Meu pai se está a finar.
Os sinos da minha terra
Os ouço dobrar;
Monta, monta, cavaleiro!
Se me quer acompanhar.
” Chegavam a uns altos paços
Foram-se logo apear.
“Senhor pai, trago-lhe um genro,
Se ainda quer se casar;
Foi meu capitão na guerra,
De amores me quis contar…
Se ainda me quer agora,
Com meu pai há de falar.”
Sete anos andei na guerra
Me fiz de filho varão.
Ninguém me conheceu nunca
Somente o meu capitão;
Conheceu-me pelos olhos,
Que por outra coisa não.

Ariano Suassuna (1927 – 2014) foi dramaturgo, romancista, poeta e membro da Academia Brasileira de Letras Ariano. “O Auto da Compadecida”, sua obra-prima, foi adaptada para a televisão e para o cinema. Sua obra reúne, além da capacidade imaginativa, seus conhecimentos sobre o folclore nordestino. Foi poeta, romancista, ensaísta, dramaturgo, professor e advogado.

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