Huck está mais para Berlusconi que para Macron


:: Kennedy Alencar em 07/02/2018 08:57 ::

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso já vinha enfraquecendo a candidatura de Geraldo Alckmin ao estimular nos bastidores a filiação de Luciano Huck ao PPS a fim de disputar o Palácio do Planalto. Mas ontem deu o tiro mais forte até agora na pretensão presidencial do governador de São Paulo.

Em entrevista à rádio Jovem Pan, FHC disse que uma eventual candidatura do apresentador de TV Luciano Huck seria boa para o Brasil. “É bom ter gente como o Luciano porque precisa arejar, botar em perigo a política tradicional, mesmo que seja do meu partido. É preciso que ela seja desafiada por pessoas portadoras de ideias e processos políticos novos para que o próprio partido possa avançar.

Está havendo sinal nessa direção”, afirmou.

A ala tucana que defende a candidatura de Alckmin considera que o ex-presidente está sendo desleal em relação ao governador paulista, porque FHC o incentivou a assumir o comando do PSDB e pleitear o Palácio do Planalto. Tucanos também dizem que a pregação favorável a Luciano Huck é contraditória com a tese defendida por FHC de que um presidente que não tem experiência para lidar com o Congresso tende a ter muita dificuldade para governar.

Ora, se o presidente de honra no PSDB bombardeia a candidatura de Alckmin, isso enfraquece potenciais alianças. Alguns partidos tendem a esperar uma definição de Luciano Huck para decidir o que fazer.

FHC cria mais dificuldades para Alckmin, que terá de enfrentar em março uma prévia contra o prefeito de Manaus, Arthur Virgílio, que é bom de briga e de palanque. Virgílio classificou a candidatura de Alckmin como “um barco furado”. Na largada, os maiores obstáculos de Alckmin estão no seu próprio partido.

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Derrotar Lula

FHC estimula Huck porque tem dúvida sobre a competitividade de Alckmin. Teme que o governador paulista não consiga convencer eleitores de menor renda e escolaridade, especialmente das regiões Norte e Nordeste.

O ex-presidente avalia que Luciano Huck teria o perfil mais adequado para atrair mais votos dessa faixa do eleitorado na qual o ex-presidente Lula é bastante popular. De acordo com pesquisa qualitativa que recebeu, FHC diz que Huck tem alta taxa de conhecimento e que poderia ser um comunicador popular mais eficiente. O potencial de votos de uma novidade política não pode ser desconsiderado. Isso pesa na avaliação do tucano.

FHC quer derrotar Lula ou um candidato apoiado pelo petista caso ele fique fora da disputa eleitoral por decisão da Justiça. Por isso, faz jogo duplo na corrida presidencial, com Plano A e Plano B.

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Tutela arriscada

A eventual candidatura de Luciano Huck seria uma aventura. O Brasil passa por uma crise que tem, nas suas raízes, a incapacidade política demonstrada pela então presidente Dilma Rousseff para dialogar com o Congresso e governar.

Uma das causas do impeachment foi uma rebelião na base de apoio de Dilma no Congresso que proporcionou um golpe parlamentar. O Brasil já sabe do risco de ter um presidente inapto para lidar com o Congresso. Também vimos esse filme, com as suas peculiaridades, no governo Collor.

É uma irresponsabilidade um político com a experiência de FHC dar gás a uma aventura, a não ser que tenha planos de ser um tutor, uma espécie de José Bonifácio de Luciano Huck. Mas essa tutela fracassou no passado distante e também no recente.

Invocando o exemplo de Dilma novamente, Lula a escolheu achando que poderia influenciar os rumos do governo. Dilma não o ouviu e quando o chamou para a Casa Civil já era tarde demais.

Também soa inadequado comparar Huck a Emmanuel Macron, como fazem alguns analistas. O presidente francês foi banqueiro e ministro da Economia antes de entrar na política. As poucas declarações públicas e entrevistas de Huck demonstram uma visão simplista da política. Ele faz um discurso recheado de boas intenções e de chavões, mas sem nenhuma ideia ou proposta consistente.

Outro risco: o escrutínio ao qual um novato é submetido numa campanha presidencial, com um raio X sobre o passado, pode inviabilizar uma eventual candidatura.

A História ensina. Na Itália, depois da Operação Mãos Limpas, veio Silvio Berlusconi. No Brasil da Lava Jato, não é absurdo pensar que isso possa acontecer em face da crise da classe política tradicional. Luciano Huck está mais para Silvio Berlusconi do que para Emmanuel Macron.

Ouça o comentário no “Jornal da CBN”:

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