‘Ô, que samba bom’


:: TM Cidade em 11/02/2018 08:36 ::

“Pisei num despacho” é samba de gafieira, que a juiz-forana Sandra Portella gravou em seu segundo disco, “Banho de fé”, reverenciando um compositor de faces diversas. Geraldo Pereira, o mesmo dos versos “desde o dia em que eu passei/ numa esquina e pisei num despacho”, escreveu “Escurinho” e “Escurinha”, representantes de seu samba sincopado que, anos mais tarde, inspirou a bossa-nova. “Para esse disco queria uma música que fosse menos tocada e ‘Pisei num despacho’ caiu como uma luva. Queríamos um samba que desse um toque diferente, e essa gafieira trouxe isso”, conta Sandra, que no disco vai do baião ao partido alto.

“Canto músicas do Geraldo Pereira desde que fazia a roda do Muzik, em 2005. Ao menos uma música mantenho no meu repertório em todos os shows que faço. Algumas músicas dele são muito populares, como ‘Falsa baiana’, fácil de pegar. E tem outras mais sofisticadas, como ‘Sem compromisso’”, comenta a cantora, que neste domingo (11) sobe ao palco da Praça Antônio Carlos para reverenciar a obra do músico que, aos 10, saiu de sua Juiz de Fora natal para ganhar o morro da Mangueira, onde inscreveu seu nome na história da música popular brasileira.

“O Geraldo era um artista muito além de seu tempo. O Monarco da Portela defende isso, como o João Gilberto, que chamava atenção para o sincopado do samba e também para a crônica contida em cada canção”, aponta o sobrinho-neto de Geraldo, Valmir Araújo, o Professor Araújo, que coordena o Centro de Artes Geraldo Pereira, na Mangueira. Observador perspicaz, o compositor carregava para suas letras a capital da boemia, do flerte e das muitas misérias. “Graças a Deus não vou comer mais gato/ carne de vaca no açougue é mato/ com meu amor eu já posso viver”, canta Geraldo em seu “Ministério da Economia”, sobre a criação da pasta em 1951, por Getúlio Vargas, que propagava aos quatro cantos as esperanças que a instituição traria ao país. “Ele tratava das situações que via e vivia”, confirma Professor Araújo.

A homenagem juiz-forana, que conta, ainda, com a participação das baterias das escolas de samba Unidos das Vilas do Retiro e Real Grandeza, também reúne o sambista Ney Gerald e convidados. Já no Rio de Janeiro, o centenário do sambista começou a ser comemorado no sábado (10), no desfile da Banda de Ipanema. Em abril, mês que Geraldo completaria um século de vida, não fosse a prematura morte aos 37 anos, a Velha Guarda Musical da Mangueira celebra 90 anos da escola e os 100 de seu célebre compositor. Segundo Professor Araújo, ainda estão previstos um musical, um espetáculo biográfico e um documentário, todos para 2018. “Ô, que samba bom/ ô, que coisa louca/ eu também tô aí/ tô aí, que é que há/ também tô nessa boca”, cantaria Geraldo em seu “Que samba bom”.

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