Episódio Segóvia mostra falta de autocontenção de autoridades


:: Kennedy Alencar em 14/02/2018 09:28 ::

Mais uma vez, o diretor-geral da Polícia Federal, Luiz Fernando Segóvia, falou o que não deveria e não poderia ter falado.

Em recente entrevista à agência Reuters, ele disse que não havia indício de crime nem de pagamento de propina num inquérito sobre portos no qual o presidente Michel Temer é um dos investigados. Segundo a Reuters, Segóvia indicou tendência de arquivamento desse inquérito da Polícia Federal.

Houve reação de entidades que representam policiais e peritos federais. O ministro do Supremo Tribunal Federal, Luiz Roberto Barroso, cobrou explicações do diretor-geral da PF.

Tem sido uma marca da gestão Segóvia dar declarações desastradas e que denotam um desejo de agradar ao governo que o nomeou para comandar a Polícia Federal.

É inadequado que um diretor-geral aja assim.

O próprio Palácio do Planalto avalia que Segóvia deu um tiro no pé, numa tentativa de servilismo que teve efeito contrário ao pretendido. No entanto, ele não está dançando a música sozinho.

Delegados da Polícia Federal e procuradores da República são pródigos em falar sobre investigações em andamento. A diferença é que Segovia falou em defesa do presidente da República. Normalmente, as manifestações são para alardear provas contra um investigado. Falar contra um investigado pode. Falar a favor não pode? Ora, não pode a favor nem contra.

Dificilmente um ministro do STF cobra esses delegados e procuradores a explicar suas declarações sobre inquéritos em curso. Aliás, é comum ver ministros do STF a pontificar sobre casos que ainda serão julgados, antecipando posições.

O ministro Luiz Fux, atual presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), já se manifestou sobre a eventual candidatura do ex-presidente Lula, que nem registrada foi. O petista está no meio de uma luta judicial, mas Fux já tem a sua posição.

O ministro Barroso, que cobrou Segóvia, deu declarações e escreveu artigo na “Folha de S.Paulo” contra eventual revisão da decisão do Supremo sobre prisão após condenação em segunda instância, apesar de a corte provavelmente vir a ser chamada em breve a se manifestar novamente sobre o tema.

Segovia errou e arrotou um poder que não tem completamente, mas apenas parcialmente. Mesmo que a PF venha a arquivar o inquérito sobre portos, isso não significa que o Ministério Público vá deixar de levar a investigação adiante.

Faltou a Segovia a mesma atitude de autocontenção que tem faltado a outras autoridades da Polícia Federal, do Ministério Público e do Judiciário.

Ouça o comentário no “Jornal da CBN”:

Clique aqui para ver esta matéria na fonte original.