Marcelo Misailidis, da Beija-Flor, fala sobre o enredo vitorioso


:: TM Cultura em 15/02/2018 15:09 ::

No ano em que as escolas de samba do Rio de Janeiro tiveram que, metaforicamente e literalmente, rebolar para garantir um desfile digno, colorido e com sambas que levantassem e contagiassem o público, o que se viu foram mudanças nos conceitos do espetáculo, onde destacaram-se enredos polêmicos e embasados em problemas sociais. Ao contrário do que se imaginou, os jurados aceitaram e consideraram como os melhores de 2018 os desfiles da Beija-Flor, a grande campeã, e da Paraíso do Tuiuti, vice-campeã, que trataram de colocar o dedo na ferida e enaltecer as mazelas da sociedade, corrupção e injustiças.

Em entrevista à CBN Juiz de Fora na manhã desta quinta-feira (15), o bailarino e coreógrafo Marcelo Misailidis, um dos responsáveis pelo enredo “Monstro é aquele que não sabe amar. Os filhos abandonados da pátria que os pariu”, da Beija-Flor, comentou sobre o resultado e sobre a mudança de paradigma no carnaval carioca.

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Rio de Janeiro – Desfile da Escola de Samba campeã do Carnaval 2018 na Sapucaí. Beija-flor de Nilópolis (Gabriel Nascimento/RioTur)

“O luxo, hoje em dia, não é encher uma escola de ouro e de plumas. Luxo é dar voz ao povo, ser porta-voz das necessidades que as pessoas têm. Luxo é dar cultura a questões importantes, como a Beija-Flor fez ao retratar uma obra de importância mundial – “Frankenstein”, de Mary Shelley – e emoldurá-la numa questão que estamos vivendo hoje. Isso é luxo, falar dos problemas que nós temos na saúde, na educação e na segurança pública. O que aconteceu ontem (quarta-feira) – apuração dos votos – foi uma resgate, inclusive, de uma citação histórica do “Ratos e urubus” – de 1989 – que ficou em segundo lugar, pois não estava dentro dos parâmetros dos julgadores de entender aquele carnaval, que era o lixo. Dessa vez, o tempo fez justiça à Beija-Flor, que saiu campeã com um tema polêmico, com uma estética que as algumas pessoas não conseguiram compreender”, destacou Misailidis à CBN.

O artista contou que levou o tema do enredo à escola em março do ano passado, com o intuito de colaborar para mudanças internas nas quais a Beija-Flor se propôs para atrair o público jovem para os desfiles e para a agremiação. “Os jovens até vão para a avenida, mas em função dos camarotes, acabam não se dando conta das escolas em função das atrações que ocorrem nos camarotes. O carnaval, como qualquer outro espetáculo artístico, precisa de renovação da plateia.”

Misailidis revelou, na entrevista, que buscou na obra “Frankenstein” uma tentativa mais direta de comunicação com o público. “Esta obra está fazendo 200 anos e possui arquétipos que falam muito de traços do ser humano, relacionados à questão do criador e da criatura, que por um lado existe um ser que é tomado pela ambição e pela ganância, e do outro lado um personagem que é abandonado à própria sorte, que é o monstro. E dessa relação conflituosa existem as facetas da intolerância. Baseado nesses arquétipos, foi possível transformar o drama que vivemos em nossa sociedade em uma obra plausível como enredo carnavalesco”, destacou o bailarino, que completou 20 anos de avenida em 2018.

Sobre essas duas décadas de experiência na Sapucaí, Misailidis avalia que o carnaval carioca vem crescendo como um dos produtos que melhor representa o Brasil, tanto no sentido cultural como no conceito de “o Brasil que dá certo”. “Mas o carnaval, para se manter vivo e vibrante, precisa estar à frente do desafio, de quebrar os paradigmas do que é tradicional, convencional. Isso é uma das coisas mais difíceis de se alcançar. Quando você promove um enredo como o da Beija-Flor deste ano, que provocou com um tema que será lembrado durante anos e anos. Espero que esse quadro de descaso político em nosso país mude daqui pra frente.”

Em relação às críticas que a Beija-Flor recebeu sobre a incompreensão do tema, o bailarino explicou que, o desenvolver algo dentro de um processo artístico, fica-se exposto a análises e críticas, mas é preciso ter uma visão contemporânea dos fatos. “O novo sempre choca, promove vaias, críticas e torna-se desconfortável para os padrões de conhecimento daqueles julgadores. Eu lamento que as pessoas não conseguiram entender um espetáculo que está à frente do tempo deles. Mas o carnaval, ou qualquer outro processo artístico, só sobrevive se ele se reinventa, caso contrário, ele vai caducando, vai ficando sem graça e previsível, como aconteceu com muitos desfiles. Eles foram bonitos, mas previsíveis, e fazem parte de um processo de carnaval que já está ficando ultrapassado. Se não se reinventar, não tem porque as pessoas virem novamente para ver algo que já é conhecido e maçante. Respeito a opinião de cada um, mas o novo sempre vem e faz parte do processo da vida”, pontuou o bailarino que estreou no carnaval carioca em 1998, na Unidos da Tijuca. Em sua carreira, Misailidis já passou pelo Salgueiro e Vila Isabel, e está na Beija-Flor desde 2012.

Raízes juiz-foranas

Marcelo Misailidis é uruguaio, mas mudou-se para o Brasil com a família aos 6 anos. Até os 18 anos viveu no interior de São Paulo e depois foi para o Rio de Janeiro, onde mergulhou no balé clássico. Aos 23 anos, depois de se aprimorar com a ajuda de Dalal Achcar, tornou-se o primeiro bailarino do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Sua história em Juiz de Fora começa pelo seu casamento com a bailarina juiz-forana Danielle Marrie. O casal dirigiu, por mais de 20 anos, a Escola de Dança Misailidis, que recentemente anunciou o encerramento das atividades. “Atualmente é praticamente impossível manter uma instituição cultural sem apoio e incentivo. A arte está vivendo uma situação de penúria total. As pessoas não apoiam projetos artísticos, e chega uma hora que percebemos que estávamos subsidiando uma coisa que deveria ser, minimamente, apoiada por órgãos municipais e governamentais. Enquanto teve fôlego, a gente tentou. Mas para conseguir manter as coisas dentro de padrões sérios, decidimos que seria melhor parar por um tempo para não perder a qualidade”, destacou à CBN.

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