O PALCO É PARA TODAS QUE SONHAM COM UMA REALIDADE DIFERENTE


:: Diário Regional em 06/03/2018 22:16 ::

“Sou dona de mim
Não pertenço a ninguém
Tenho valor e não preço
Dispenso grandes vaidades
Mulheres não são propriedades”.

É com esse trecho do texto “Sobre mim. O nome” da poeta de 21 anos Laura Conceição que abrimos a terceira matéria de nossa série de reportagens em celebração ao Dia Internacional da Mulher. No final do mês, Laura completa mais um ano de vida e a atriz Marcinha Falabella 32 anos dedicados ao grupo teatral Divulgação da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). As duas encontraram nos palcos uma forma de se expressar e buscar igualdade entre os gêneros.

“Nem como professora e nem como atriz sofri algum tipo de preconceito.

Fico feliz em trabalhar em espaços em que a mulher sempre foi respeitada. A arte oferece esses espaços”, refletiu Marcinha. Mas a poeta não teve a mesma “sorte”. “Eu já sofri preconceito por ser mulher, não só dentro do movimento hip hop, mas em todos os setores da sociedade. Às vezes, a gente recebe menos, não tem oportunidade ou não tem o nome escrito no cartaz do evento. Isso tudo por ser mulher. É uma luta diária mesmo”, afirmou Laura.

Marcinha relembrou que ao longo de um período na história as mulheres tinham certo poder na sociedade. “Antes da submissão das mulheres ao longo da história da sociedade patriarcal, elas tinham poder dentro de algumas tribos porque davam a vida a outro ser e as pessoas achavam isso uma coisa extraordinária. Isso ocorreu até o momento em que os homens entenderam que fazem parte do processo de criação e, como eram mais fortes, reverteram”, contou Marcinha. “Com essa mudança, ao longo dos anos, sempre tivemos mulheres que acharam uma brecha para poder lutar e conquistar espaço e na arte foi muito significativo como, por exemplo, a carreira de atriz. Durante muito tempo, as atrizes eram consideradas prostitutas, mas mesmo assim elas batalharam, encontraram os seus espaços, até a profissão ser regulamentada”, acrescentou.

COMO TUDO COMEÇOU

Marcinha iniciou o seu envolvimento com o Grupo Divulgação durante a faculdade, quando conheceu o professor José Luiz Ribeiro. “Eu estou envolvida com o teatro desde sempre, na verdade. Eu fazia participações em eventos e peças teatrais da escola. Queria cursar teatro, mas na época do vestibular desisti porque eu não iria me mudar para o Rio de Janeiro, porque eu era muito nova e muito ligada à minha família. Além disso, não tinha experiência”, contou a atriz. “Escolhi Comunicação porque era o que mais se aproximava do teatro. E não era que a minha intuição estava certa! No terceiro período da faculdade, fazia uma disciplina com o professor Zé Luiz e ele falou do curso que tinha. Eu já tinha assistido alguns trabalhos do Divulgação, então, eu resolvi fazer”.

Ela decidiu que iria permanecer no teatro até se formar e resolver que caminho seguir. Depois de graduada, Marcinha foi conhecer o mercado teatral em São Paulo, mas logo retornou à Juiz de Fora. “Então, a Malu, esposa do Zé Luiz e que também foi minha professora na faculdade, me sugeriu que eu fizesse mestrado em Teoria da Literatura, no qual eu estudaria dramaturgia. Assim, estudaria e continuaria no teatro. Nesse momento, já tinha quatro anos que fazia teatro e também já estava tendo reconhecimento como atriz. Então continuei no Divulgação e no final deste mês completa 32 anos que comecei a fazer teatro no grupo”, completou.

Após alguns anos nos palcos, Marcinha levou o seu lado atriz para as salas de aula. “Depois que já tinha feito o mestrado, abriu concurso de professor substituto na Universidade e eu passei. Seis meses depois, teve para professor efetivo e eu também passei. E estar dentro da sala de aula é também fazer um pouco de teatro. A gente tem um público, que a gente precisa criar uma conexão, e está ali interpretando um papel. Eu também amo e está muito conectado com eu faço no teatro”, destacou.

Para ela, as suas conquistas na vida se devem ao teatro. “Eu nunca pensei em seguir outra profissão. Também tenho escrito sobre o teatro, tanto na área acadêmica quanto literária. Tudo na minha vida gira em torno do teatro. Por exemplo, se olho uma vitrine penso em como ela seria uma cenografia legal, que as peças poderiam formar uma figurino”, afirmou Marcinha. “O meu olhar para o mundo sempre perpassa pelo teatro. Sem contar que, em contrapartida, fazer teatro desenvolveu uma séria de coisas de improviso diante da vida. Eu aprendi a costurar, pregar botão e fazer bainha confeccionando figurino. Aprendi a fazer uma ligação elétrica aqui também”, salientou.

RAP: A VOZ DAQUELES QUE PRECISAM SER OUVIDOS

Laura Conceição começou a se dedicar ao rap aos trezes anos, após ouvir um e decidir que queria transformar os seus poemas em música também. “Porém, tem dois anos que eu estou na cena de Juiz de Fora, me apresentando e batalhando freestyle nos encontros de Mc’s”, contou a poeta, que vem de uma família de músicos.

“Muito das minhas letras, das minhas rimas, falam da luta diária de uma mulher na sociedade. As situações que vivencio me inspiram muito e influenciam as minhas letras”, disse Laura.

Para ela, o rap é uma ferramenta de resistência. “O rap é luta, força, resistência e voz de quem precisa ter voz, precisa passar uma mensagem na sociedade”, concluiu.

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