Sem Lula, Ciro x Alckmin é um dos cenários prováveis no 2º turno


:: Kennedy Alencar em 09/03/2018 08:54 ::

Lançado ontem pré-candidato do PDT à Presidência, Ciro Gomes disse que deverá enfrentar o tucano Geraldo Alckmin no segundo turno.

“Vejo neste momento essas cinco candidaturas. O Bolsonaro tamponando o Alckmin. O Lula tamponando a minha evolução e, na medida em que um outro não esteja no processo, eu e o Alckmin dividiremos a disputa no segundo turno”, afirmou ontem Ciro.

Segundo Ciro, Marina Silva, da Rede, estaria numa posição “isolada”, mas faria parte dessas cinco candidaturas destacadas por ele.

De fato, um segundo turno entre Ciro e Alckmin é um dos cenários mais prováveis neste momento em que ainda está tão aberta a disputa eleitoral.

Há outros cenários possíveis, mas esse é, sim, um dos mais prováveis. A análise de Ciro faz sentido.

No campo da direita, há um candidato extremista, Jair Bolsonaro, bloqueando o crescimento de um postulante mais ao centro, Geraldo Alckmin. Bolsonaro se mantém até agora no patamar de 20%, um pouco menos, a depender da pesquisa. Alckmin teve entre 6% e 8% no Datafolha.

No passado, eleitores que hoje preferem Bolsonaro votaram em nomes do PSDB. Logo, se Alckmin dinamitar Bolsonaro, tem chance de ser o nome mais forte de um amplo campo de direita. Alguns candidatos de centro-direita, como Rodrigo Maia, estão se apresentando, mas em situação mais difícil do que Alckmin.

Na esquerda, o grande fator que definirá o quadro de nomes viáveis será o ex-presidente Lula. O petista tem lutado na Justiça pela sua candidatura presidencial. A cada dia, fica mais difícil viabilizá-la, mas ele tem o direito de esgotar os recursos judiciais e políticos para tentar alcançar o seu objetivo. Faz sentido para o PT bancar Lula, porque ele é líder nas pesquisas e puxa votos para candidatos petistas a outros cargos em outubro.

Mas, se Lula ficar fora da eleição, há possibilidade de Ciro herdar parte significativa dos votos do petista. Nesse sentido, Lula tem bloqueado Ciro, como disse ontem o ex-governador do Ceará e ex-ministro da Fazenda.

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Lições do passado

No entanto, Ciro tem desafios para se fortalecer no campo de centro-esquerda. O primeiro deles é parar de hostilizar Lula e o PT em entrevistas e discursos.

O destino de Lula não depende das palavras de Ciro, sejam elas de apoio ou ataque ao ex-presidente.

Ciro queimou pontes com o PT. Ainda há tempo para reconstruí-las, o que seria o movimento mais inteligente dele neste momento da disputa eleitoral.

Se Lula não puder ser candidato, será um grande cabo eleitoral. Terá capacidade de transferir parte de seus votos para outro postulante. Mesmo que o PT apresente um candidato, Ciro pode ser o nome da centro-esquerda com maior capacidade de herdar votos lulistas.

A capacidade de herança será maior se não estiver em conflito com o PT. Outros pré-candidatos de esquerda, como Manuela D’Ávila, do PC do B, e Guilherme Boulos, do PSOL, tem tido a atitude inteligente de apoiar a participação de Lula na eleição.

Se o PT tiver um candidato próprio que não seja Lula, mas Ciro se encontrar numa posição mais favorável nas pesquisas do que outros postulantes de esquerda, parte do eleitorado do ex-presidente poderá fazer uma opção por ele com mais tranquilidade se o nível de hostilidade em relação ao PT for baixo. Ciro tem feito um discurso econômico moderado, com ingredientes de centro-esquerda, que agradam ao eleitorado lulista.

Em campanhas passadas, Ciro foi vítima das próprias palavras, algo que lhe custou caro politicamente. Ele deveria assumir uma atitude mais presidencial. Quem ocupa o Palácio do Planalto não pode e não deve dizer tudo o que pensa. Se tirar proveito das lições do passado, terá chance maior de chegar ao segundo e eventualmente vencer a eleição.

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Opção conservadora

A ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva (Rede) migrou nos últimos anos da centro-esquerda para uma posição ao centro, fazendo mais acenos à direita do que à esquerda. Mesmo essa Marina mais conservadora pode captar parte do eleitorado que prefere Lula se o ex-presidente não puder concorrer. Ela também pode ser uma opção mais moderada de setores do campo conservador.

Apesar do enfraquecimento político em relação a 2014 e da perda de quadros da Rede, Marina tem chance de chegar ao segundo turno. Esse é outro cenário eleitoral que faz sentido. Também não podemos descartar a presença de Bolsonaro na segunda etapa se ele tiver sucesso em bloquear nomes pela direita.

Sem uma surpresa eleitoral e analisando o quadro político atual, o próximo presidente do Brasil tende a sair desse baralho em que as cartas hoje são Lula, Bolsonaro, Alckmin, Ciro e Marina. Mas surpresas podem acontecer, como um outro nome apoiado por Lula decolar se o ex-presidente não concorrer, ou um outsider que se imponha eleitoralmente, apesar de essa hipótese estar se enfraquecendo a cada dia.

Hoje, há especulação sobre a possibilidade de o ex-presidente do STF Joaquim Barbosa entrar no PSB. Mas o partido não lhe garante candidatura automaticamente. Barbosa teria de fazer uma aposta. Está pensando. Vida de outsider não é fácil, como vimos com a fuga de Luciano Huck da corrida eleitoral.

No entanto, até 7 de abril, seis meses antes do primeiro turno, todos os que queiram ser candidatos terão de estar filiados a um partido. Em menos de um mês, a disputa eleitoral vai ganhar contornos um pouco mais nítidos em relação a quem pode mesmo ser candidato. Vai trazer algumas definições, mas ainda teremos um quadro eleitoral bastante aberto.

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