Doria deve explicação melhor para quebra de promessa


:: Kennedy Alencar em 13/03/2018 08:34 ::

A saída de João Doria da Prefeitura de São Paulo a fim de concorrer ao Palácio dos Bandeirantes será um fator de desgaste na campanha estadual. Será preciso dar uma razão melhor do que essa de que ocorreu um chamado partidário. Delegados estaduais do PSDB lançaram ontem a pré-candidatura de Doria ao Palácio dos Bandeirantes.

Para quem se elegeu prefeito criticando os políticos, Doria aprendeu a reproduzir rapidamente um comportamento tradicional, quebrando a promessa de cumprir todo o mandato. Será difícil dizer na próxima campanha que não é político, mas gestor.

A exemplo de quando o prefeito ensaiou a candidatura presidencial no ano passado, a capital paulista volta a ficar numa posição de menor importância.

O vice-prefeito Bruno Covas não tem o peso político que Doria adquiriu. Deverá ser um prefeito mais fraco politicamente. É óbvio que há risco de que isso provoque reflexos administrativos negativos.

É ruim alguém fazer campanha para administrar a maior cidade do país, que possui tantos desafios, e delegar essa tarefa a outra pessoa, abrindo mão de quase três anos de mandato. É como se a capital fosse descartável no jogo político.

O prefeito de São Paulo, pela importância da cidade e dos seus enormes problemas, deveria ser alguém que realmente quisesse ficar os 4 anos no mandato, como Doria prometeu inúmeras vezes.

São Paulo é uma cidade com questões tão complexas e difíceis que demanda um prefeito dedicado em tempo integral, não alguém com a cabeça nos palácios do Planalto ou dos Bandeirantes. Mas o que está acontecendo é o retrato da política como ela é, com as suas ambições pessoais, mudanças de rumo, surpresas e pedras no meio do caminho.

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Casamento de conveniências

A candidatura Doria ao governo paulista é uma união de interesses do prefeito com uma parcela do PSDB que avalia que ele seria o tucano com mais potencial para puxar votos para candidatos a deputado federal e deputado estadual.

Existe um temor de encolhimento da representação legislativa do PSDB na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa. Nesse contexto, houve um casamento de conveniências mútuas que deve levar Doria a confirmar a candidatura pelo PSDB e vencer outros pré-candidatos do partido. Doria tende a ser um candidato bastante competitivo ao Palácio dos Bandeirantes.

Da parte de Doria, é a oportunidade para se livrar de um abacaxi administrativo a fim de tentar assumir um cargo com maior capacidade de investimentos e menos problemas graves _que costumam jogar para baixo a popularidade do titular. A história recente mostra que é mais difícil ser prefeito de São Paulo do que governador do Estado.

A situação financeira do Estado é muito melhor do que a da prefeitura. Os desafios administrativos da maior cidade do país costumam demolir a popularidade dos prefeitos paulistanos. Doria perdeu popularidade ao longo de 2017, chegando a 39% de reprovação no Datafolha no final do ano, taxa semelhante ao do antecessor, Fernando Haddad, no mesmo período de governo.

Segundo aliados do governador Geraldo Alckmin, o pré-candidato do PSDB à Presidência preferia que Doria ficasse na prefeitura. A ideia era ter um candidato a governador do PSDB mais fraco politicamente a fim de aumentar a chance de Márcio França, vice-governador de Alckmin que vai assumir o posto em abril e disputar o Palácio dos Bandeirantes.

Esse cenário estava sendo trabalhado para que Alckmin tentasse obter o apoio do PSB de França para sua candidatura nacional. Mas a articulação de Doria para competir com França aumentou as resistências que já existiam no PSB em relação a uma aliança nacional com o governador paulista.

Hoje, como o cenário mais provável é o PSB não apoiar o projeto presidencial de Alckmin, isso tirou força do governador para barrar o desejo do prefeito e de parte do partido.

Aliados de Alckmin reconhecem que Doria é nome mais forte do PSDB para disputar o Palácio dos Bandeirantes. No entanto, também afirmam que Alckmin não precisaria dele para angariar votos no Estado para a disputa presidencial.

Há relatos no PSDB de que Alckmin não engoliu até hoje a tentativa de Doria de se viabilizar no ano passado como candidato a presidente da República. Mas, com tanto obstáculos nacionais para ganhar musculatura política, Alckmin tende a aceitar a candidatura de Doria como um fato consumado e ter palanque duplo em São Paulo.

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