Tribuna conversa com o fotógrafo criador do projeto Ela Crua


:: TM Cultura em 13/03/2018 19:25 ::

Ela-Crua-Alberto-Prado-2.jpg(Foto: Alberto Prado/Instagram)

Para quem não conhece o perfil do projeto Ela Crua no Instagram, sugiro, antes de tudo, abrir pelo aplicativo o perfil . O projeto, idealizado por um fotógrafo, vai completar cinco anos tendo registrado, em média, 150 nus femininos. Nesse processo, caminhou por fases distintas e hoje, pelas palavras de quem faz os cliques, Alberto Prado, tem tentado chegar a uma estética conceitual, que ultrapassa significados, provocando sensações que permanecem em suspenso, utilizando-se de luz natural, arquitetura e corpo como tríade para compor as imagens.

Porém, evidentemente, para cada um que bater o olho, pela teoria semiótica das representações, as significações serão montadas.

A obsessão pelo corpo feminino é algo que me incomoda, como mulher. Por isso propus uma conversa franca com Alberto, que esteve em Juiz de Fora no último fim de semana, para realizar seu workshop, que hoje, conta ele, é majoritariamente frequentado por mulheres com desejo de fotografar, e não apenas serem fotografadas. Este é um dado muito coeso ao movimento de mulheres fotógrafas que têm buscado registrar outras mulheres como forma de humanizar aqueles corpos individualmente.

Alberto defende a não edição das fotografias, que, em seu trabalho, são mantidas ao natural, e afirma prezar pela pluralidade dos corpos. O diferencial do trabalho de Alberto Prado, a meu ver, é a cuidadosa escolha das locações e a maneira como são explorados os cenários, indo do interior de um armário a uma linha de trem ou paisagens naturais infindáveis, outra característica é a iluminação, muito inspirada pelas telas de pintores holandeses.

Alberto-Prado_ElaCrua_Foto-Carlos-Ximenes-2.jpg(Foto: Divulgação)

Tribuna – Por que fotografar corpos de mulheres nus?
Alberto Prado – Fotografar mulher sempre esteve muito constante no meu trabalho. O Ela Crua surgiu, primeiro, pela minha vontade de fotografar pessoas nuas. E eu não sou muito a favor das fotos de revista, mostrando a mulher muito transformada. Quando comecei, isso era ainda mais forte, de aumentar o bumbum, tirar as estrias, deixá-las como uma boneca plástica. Quis retratar pessoas normais, que vejo enquanto ando nas ruas. A primeira fase do projeto veio de três palavras chaves: essência, estilo e personalidade. Era o que eu queria buscar nestas personas. Aí começou um processo de identificação destas fotografias misturadas aos depoimentos das mulheres. Começaram a chegar histórias de pessoas tristes. Por isso, tem uma fase no Instagram que é bem melancólica, não mostra rosto, a pessoa está sempre introspectiva. Foi um processo natural. Fotografei meninas com transtornos e variações de personalidade, que as fazem ir do céu ao inferno em um dia. E tudo isso ligado ao corpo, à estética, por não estarem satisfeitas consigo mesmas. Antes, pensava somente na pessoa, depois comecei a pensar também na sua história, e o local. A evolução foi por aí. Por isso a ideia mais plástica, subjetiva e que tem arquitetura envolvida.

Como você conduz o ensaio? Os corpos, as poses e as escolhas do local? Isso parte muito das mulheres?
Eu tenho um processo criativo junto a elas. Começa pela abordagem, quando me procuram querendo participar do projeto. Digo que o ensaio inteiro é uma conversa, até chegar à foto. A gente define um local que tenha a ver com a pessoa. Quando se tem um planejamento e uma grande conversa, a direção fica muito fácil. Na hora de fotografar, não tem um pacote pré-pronto, é muito feito para aquela pessoa. Eu prego muito o “se identificar”. Hoje mesmo, eu nunca tinha encontrado a mulher que fotografei. Tinha feito a entrevista e conversava por whatsapp e e-mail, eu já sabia tanta coisa dela e ela de mim e do projeto, que ficou muito fácil. Ela tinha um certo nervosismo. É um processo. A pior hora para a pessoa que está com vergonha é tirar a roupa, mas para ela foi supertranquilo, e isso tem rolado constantemente.

Que profissionais da imagem te influenciam no trabalho?
Primeiro, são as referências de superfotógrafos. Por exemplo, Helmut Newton é uma referência, um grande um mito. O próprio Sebastião Salgado e alguns amigos fotógrafos. Fotografia de rua é uma vertente que eu gosto muito, mas não é para mim, não sei fazer. As referências visuais, claro, de pinturas renascentistas, pintores europeus, principalmente os holandeses, me chamam muita atenção pela luz. O cinema, em geral, me inspira muito também.

As mulheres estão muito mais confortáveis em se expor, porém de forma humanizada. Por que agora estão abertas a fazer essa exposição?
A mulher se impôs, é o que tem que ser feito. Colocou o peito para fora e falou: a gente pode e ponto. Os homens também tem que fazer isso, tem que enxergar essa igualdade. Eu não vejo pessoas como homem e mulher. É tudo gente e pronto. No geral, as pessoas precisam se respeitar.

Como você acha que a fotografia feminina, principalmente nua, contribui para esse movimento?
A rede social trouxe uma liberdade muito grande, de você se mostrar e ao mesmo tempo não se mostrar. Você se expõe para o mundo inteiro através de uma foto, um aplicativo, e você não precisa sair na rua para isso. Você pode ter uma voz ativa através de uma rede social. É meio contraditório, tem o lado bom e o ruim. No meu trabalho, procuro a não sexualização do corpo feminino, isso é um lance que chamou a atenção destas mulheres. Já fiz capa da revista “Sexy”, que é o oposto do que faço hoje. E foi através do projeto Ela Crua que me convidaram. Eles queriam mudar o conceito, tentamos, mas não conseguimos 100%, apenas uns 50%. Ainda ficou um pouco no teor sexy. A revista precisa de dinheiro e tem um público X, essa capa que fiz foi um fracasso, porque foi meio dessexualizada. Eu fiquei feliz, porque consegui colocar um pouquinho do meu trabalho, dessa voz que eu tento jogar para o mundo.

Um homem ter um olhar sobre um nu feminino de forma não sexualizada é algo complicado.
Quem me ensinou muito a ser essa pessoa que sou hoje, de perder um tanto desse machismo que foi imposto por tudo a minha volta, foram as mulheres. Sou de família nordestina, sempre fui muito cobrado nesse sentido. Com 13 anos, em casa, reunião de família, chegavam os tios: “Tá pegando muita menininha?”. Fui muito assim por um bom tempo. E quem me ajudou foram vocês, minhas namoradas, irmãs, minha mãe. Principalmente minhas três últimas namoradas me ajudaram a enxergar essa mulher como um igual e não estar fotografando uma mulher nua e ver sexualidade. O Ela Crua é este projeto hoje, por conta das namoradas que tive.

Ela-Crua-Alberto-Prado-6.jpg(Foto: Alberto Prado/Instagram)

Você acompanha o trabalho de outras mulheres fotógrafas que fazem nus femininos?
Sim, conheço bastante. Tenho muitas amigas que fotografam mulheres. Nesse meio eu procuro ter o máximo de amizades possíveis. E tem muita mulher fotógrafa que eu admiro muito. Gosto muito do trabalho da Naira Mattia.

Com relação ao tratamento das imagens, você prega muito o natural. O que você faz nas edições?
Desde o início eu digo que as fotos são somente reveladas, elas não são editadas. Tirar uma estria, celulite, isso nunca rolou no projeto. É uma revelação da foto mesmo, de trazer o tom e a cor ideal, eu decido muito conforme o clima do ambiente, se vai ser colorida, preto e branca, se vai ter um tom a mais. Nesse processo de evolução, percebo que me identifico demais com algumas histórias. Às vezes, acaba sendo um autorretrato, sabe?

Você diante da câmera e a mulher no papel de modelo, como vê essa relação? Porque continua sendo um homem fotografando mulheres…
Tudo é pensado para essa mulher. Cheguei a falar que 90% da foto eram a pessoa, e 10%, eu impunha pelo meu olhar e criação. Mas é uma unidade. Hoje eu fotografo homens nus também, e o processo é o mesmo, não muda.

Qual o estereótipo de mulher que mais procura participar do Ela Crua?
A que está bem consigo mesma.

E em um mundo gordofóbico, racista, eu imagino que sejam mulheres brancas e dentro de um padrão de beleza.
Nem tanto. Pelo contrário. Muitas mulheres fora dos padrões, mais negras, mais feministas.

Por mais que você busque essa pluralidade de corpos, a maioria são mulheres que a sociedade as aceita, justamente porque elas se sentem mais seguras para serem expostas.
– Pode ser que sim, mas isso tem mudado bastante. Esses dias eu recebi uma mensagem de uma menina perguntando: “Você fotografa gordas?”. Eu respondi: “Claro! Dá uma olhada no Instagram, ainda são poucas, mas eu tento”.

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