11ª Semana Paralímpica começa neste sábado


:: TM Esportes em 14/09/2018 19:16 ::

paralimpico-4.pngSerão disputadas bocha, polybat (tênis de mesa com barras laterais), futebol paralímpico, goalball, atletismo e natação (Foto: Marcelo Ribeiro)

Para o matiense Anceves José Ribeiro, conhecido como Prego, 43 anos, a bocha surgiu como a porta de saída de um quadro depressivo. O autista Jader Rocha, 32, por sua vez, tem na corrida e na natação auxílios fundamentais em seu desenvolvimento social.

Exemplos de superação como os desta dupla não faltam e serão ainda mais visíveis a partir deste sábado (15), às 10h, no Ginásio da Secretaria de Esporte e Lazer (SEL, na Avenida Rui Barbosa, 530, Santa Terezinha) na abertura da 11ª Semana Paralímpica, evento promovido pela Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) que envolve pessoas com deficiência na prática de esportes adaptados.

Participam da competição quaisquer deficientes auditivos, físicos, intelectuais, visuais ou múltiplos que fizeram inscrição com antecedência no site da PJF. De segunda (17) a sábado (22) serão disputadas bocha, polybat (tênis de mesa com barras laterais), futebol paralímpico, goalball, atletismo e natação. É um dos momentos do ano em que paratletas como Prego e Jader irão mostrar a familiares, amigos e a si mesmos a evolução obtida na saúde e na qualidade de vida, recompensa da regular prática esportiva através do JF Paralímpico, programa da SEL.

Há 19 anos, Prego saía de uma comemoração numa cachoeira para o hospital. “Em um mergulho raso, ele quebrou as 5ª e 7ª vértebras. Ficou muito ruim, o médico na época tinha dado 72 horas de vida, mas Deus não deu. Ele era muito triste no início e pensava que não poderia fazer mais nada. Ficou muito tempo deitado na cama. Isso até conhecer a bocha, que mudou a vida dele”, conta a mãe do paratleta, a aposentada Ângela Maria das Graças.

Com a prática esportiva, iniciada no JF Paralímpico há quatro anos, Prego pareceu renascer. “Mudou tudo. Antes eu ficava muito tempo dentro de casa, parado, mas com a bocha eu saio, disputo campeonatos. Distrai muito a cabeça, é bom para espairecer. Todos do programa são tranquilos, as pessoas têm que ver e participar. A bocha melhorou a minha vida e pode ajudar mais pessoas”, conta o paratleta.

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Prego, 43 anos, quebrou duas vértebras há 19 anos após um mergulho numa cachoeira e conta que, através da bocha, disputa campeonatos e ganhou qualidade de vida (Foto: Marcelo Ribeiro)

Atleta dá dica: “É preciso foco e treinar bastante”

Os progressos, como o de Prego, também fazem parte do dia a dia de Jader. Diagnosticado com autismo quando criança, ele teve no direcionamento ao esporte uma espécie de mola propulsora no desenvolvimento corporal, como lembra a mãe, Wilma Rocha. “Quando minha filha nasceu ele teve uma rejeição. Passou por uma crise de vômito, diarreia, rejeitou. Se isolou, não queria conversar com ninguém. Levei ele até um pediatra, que disse que parecia autismo. Eu nem sabia o que era na época, morava em Recife. Fomos descobrir e começar o tratamento um pouco tarde. Depois dos 5 anos que ele começou a participar de escolinhas com acompanhamentos, sempre em escolas especiais. Foi muito difícil, desde então vimos uma evolução. E foi com o esporte que ele melhorou muito, porque ele socializa bem, aquieta, já que o esporte cansa e isso faz ele ficar mais tranquilo. Até diminuímos a quantidade de remédios que ele toma. Isso para mim é um ganho muito grande.”

Desde 2013 no JF Paralímpico, Jader cresceu dentro e fora dos ambientes de prática desportiva, o que faz Wilma levá-lo “em tudo o que tem condições porque o esporte tem sido muito bom para ele”. “Dentro de casa ele se tornou uma pessoa muito organizada. Ele é perfeccionista, tudo dele tem que ser muito certinho, então o esporte tem auxiliado ele a organizar melhor a vida dele, os seus horários”, conta.

Certos são os sorrisos tanto de esportistas, quanto de familiares durante as atividades, como Ângela fez questão de contar à Tribuna. “Hoje me sinto feliz, é só alegria. A bocha ajudou ele (Prego) em tudo. Antes vivia sempre internado, e a partir da bocha ele voltou a ser feliz, se comunica mais e criou amigos.” Hoje um dos principais jogadores de bocha do projeto, Prego também elevou sua confiança e deu dicas na modalidade. “Para ir bem na bocha você precisa de concentração, de foco e treinar bastante”, aconselha.

Professores destacam socialização e reviravoltas pessoais

O JF Paralímpico atende, atualmente, 120 alunos/atletas no atletismo, natação, bocha, futebol paralímpico, goalball e polybat que tenham ou não conhecimento sobre as modalidades de interesse. Ao todo, 12 professores integram o projeto socioesportivo que cresce desde 2013, e possui parceria com a Associação dos Cegos de Juiz de Fora (ACJF), além de contar com o apoio do Sport Club JF e da UFJF, que cedem seus espaços para a realização dos treinamentos.

A supervisora de Esportes Adaptados do Departamento de Lazer e Exercício Físico, Karla Belgo, também coordenadora da Semana Paralímpica, explica que para fazer parte do projeto basta procurar a Secretaria de Esporte e Lazer e levar identidade e atestado médico de aptidão para realizar atividade física. Se for menor de idade, o interessado deve ir acompanhado dos pais.

Entre os 12 professores encarregados pelas aulas, Adriana Guarino é uma das mais antigas e já trabalhava com o goalball desde 2009, em projeto chamado Visão do Esporte, em parceria com a Associação dos Cegos. Também professora de bocha, ela vivenciou histórias de superação das quais se orgulha em fazer parte. “Para mim o mais importante é a mudança de qualidade de vida deles. Temos alunos que chegam aqui no início, não conhecem as cores às vezes e passam a identificar o que é azul, vermelho, branco, no caso da bocha. Passam a ter uma autonomia, desenvolvida por nós com eles. Vão a competições, o que os tiram de casa para outras cidades. Isto expande o conhecimento deles, que começam a ver que a limitação, perto de outros, às vezes com a mesma deficiência, não é como pensavam. Existem alunos nossos que quando foram para uma competição pela primeira vez disseram que não tinham deficiência pelo que conheceram. Isso traz para eles um encorajamento de viver. É o que buscamos levar. Não é porque você está neste estágio que a vida acabou. O esporte resgata a vida deles.”

paralimpico2.pngJader Rocha, 32, com a mãe, Wilma, diminuiu a quantidade de remédios após iniciar a prática esportiva (Foto: Marcelo Ribeiro)

Professor de Educação Física com hemiparesia (paralisia branda de uma das metades do corpo), Igor Monteiro trabalha tanto no polybat, quanto no futsal adaptado. Cada trabalho é pensado com cuidado para atender os paratletas. “Atendemos as mais diversas deficiências. Desde a intelectual, a paralisia cerebral, pessoas com Síndrome de Down… fazemos a manipulação das regras durante as aulas para que eles consigam interagir com outros colegas e, principalmente, conheçam as possibilidades, as potencialidades e as limitações de seus corpos. É uma realização trabalhar com pessoas com deficiência, conhecer as especificidades de determinadas deficiências e, principalmente, ajudar no desenvolvimento afetivo, cognitivo, social e motor de jovens e adultos”, conta.

Há ainda renomados profissionais da cidade, como o professor de natação Gerson Oliveira, que explica como funciona o trabalho na piscina do Sport Club. “Na natação temos três níveis: o inicial, que são aulas de 40 minutos para o aprendizado, em que trabalhamos com deficientes físicos, pessoas com Síndrome de Down e autistas, por exemplo, além das turmas intermediárias e avançadas. A natação trabalha no mesmo nível que a tradicional, porém fazemos adaptações conforme a capacidade deles de movimentar ou não.Foi um dos primeiros esportes do projeto e já estamos o desenvolvendo com participações em competições.”

Além de Gerson, Giselle Leocádio e Íris Caldeira também dão aulas de natação. Os ensinamentos da bocha e do goalball são de responsabilidade de Adriana e Ivana de Barros. O futebol paralímpico e o polybat têm aulas de Cláudio Rogel. Já o atletismo é praticado sob supervisão e gestão dos professores Silvana Flora, Luiz Letayf, Giselle Leocádio e Ivana de Barros. As histórias ficam para sempre na vida dos envolvidos, como destacou o secretário de Esporte e Lazer, Júlio Gasparette.

“Aprendo a cada momento com os professores, pais e mães dos nossos atletas paralímpicos. Semanalmente atendemos mais de 500 pessoas na SEL em várias modalidades e precisamos mostrar para a sociedade de Juiz de Fora o quanto a indústria, o comércio têm condições de fazer um trabalho em apoio a este projeto. Através da preparação física, do esporte, conseguimos estimular as pessoas a viverem com mais alegria, como podemos ver nas atividades do programa. Há pessoas que chegam aqui com problemas físicos e acabam conseguindo fazer coisas que eu não consigo, o que me emociona. Milito no esporte há mais de 60 anos, e aqui na SEL estou aprendendo a viver de novo.”

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