A arte que vem do avesso – Notícias UFJF


:: UFJF em 15/09/2018 09:11 ::

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As obras de Jorge dos Santos traz a Juiz de Fora fazem parte de uma série que trabalha suas referências culturais e o legado africano em sintonia com os estudos realizados entre 1970 e 1976 (Foto: Valéria Faria)

Esculturas em ferro oxidado e instalações com impressões a ferro e fogo sobre longas faixas de feltro constituem a mostra do artista Jorge dos Santos no Museu de Arte Murilo Mendes (Mamm), da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), a partir da próxima terça-feira, dia 18.

Com entrada franca, a exposição pode ser visitada de terça a sexta-feira, das 9h às 18h; sábados, domingos e feriados, das 12h às 18h, até o final de dezembro.

Mineiro de Ouro Preto, nascido em 1957, começou bem cedo a formação artística que abriu seus caminhos para o desenho, a pintura e a escultura, com inusitadas experimentações que o projetaram internacionalmente.

As obras que Jorge dos Santos traz a Juiz de Fora fazem parte de uma série que trabalha suas referências culturais, notadamente o legado africano em sintonia com os estudos realizados entre 1970 e 1976, quando integrou a Fundação de Arte de Ouro Preto, que lhe propiciou o contato com grandes nomes da arte brasileira, como Nuno Mello e Amilcar de Castro, este sua maior influência na definição espacial. “Procuro unir essa escola construtivista com aquela que vem do umbigo, do avesso.”

Herança fundamental

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Artista Jorge dos Santos no Museu de Arte Murilo Mendes (Foto: Laura Santos)

Ao longo de sua trajetória, com exposições nos principais centros do país, explorou suas raízes ao firmar como referência maior para suas criações o imaginário africano combinado ao principal mineral extraído nas Minas Gerais, o ferro. Sua contribuição vem surpreendendo com séries diversas, entre elas as que combinam luz a estruturas metálicas, trabalhando, também, com inúmeras texturas. Entre os materiais que utiliza para expressão de sua arte estão ainda a madeira, a pedra-sabão, a pólvora e o plástico.

O caráter emblemático de sua produção está nos trabalhos desenvolvidos para áreas públicas de diversas cidades brasileiras, todos com forte simbologia e estética afrodescendente. “Meu sonho sempre foi expor em espaços abertos e públicos”, diz, lembrando a representatividade de algumas de suas obras, entre elas as que foram instaladas em Belo Horizonte: o Monumento Zumbi Liberdade e Resistência – 300 anos; e o Portal da Memória, em que abrange o sincretismo religioso, homenageando Iemanjá.

Um dos itens que estarão em exibição no hall do Mamm, parte do complexo intitulado Casa de Ferraria, é a forja, instrumento em que modela seu trabalho, fundindo e moldando os objetos metálicos que marcam o feltro, resultando em uma criação original e única. “Uso essa forja para aquecer o ferrete, um instrumento que costuma ser usado para marcar animais e que utilizo para queimar o pano, deixando minha impressão artística. É o que chamo de gravadura.”

Obras de peso

Em dimensões avantajadas, às vezes chegando a mais de três metros de altura por três metros de comprimento, seus trabalhos enchem os olhos do espectador, convidando ao toque das estruturas de aço corten, que torna as esculturas altamente resistentes ao tempo e à ação de agentes corrosivos. “Trata-se de um material muito utilizado para a edificação de pontes e construção de navios em função de suas propriedades, incluindo a facilidade de cortar, moldar, dobrar e soldar.”

As maiores instalações, uma quadrada e outra redonda, chegam a pesar entre duas e três toneladas e já estão dispostas nos jardins do Museu. Em uma verdadeira operação especial para essa montagem, Jorge dos Santos e dois assistentes utilizam um caminhão Munck para descarregar as peças. Apesar das dificuldades logísticas, o artista revela que o mais difícil não é o transporte ou a execução: “Vem muito estudo antes da obra final, definir os detalhes do projeto é o que dá mais trabalho.”

Ocupando a Galeria Retratos-relâmpago, o hall de entrada e os jardins frontais do edifício que abrange a esquina das ruas Benjamin Constant e Santo Antônio, as obras ficarão dispostas de forma a oferecer ao público uma visão da complexa proposta do artista.

Um olhar além

O jeito simples desse artista de 61 anos e de fala mansa, cheia de mineiridade, pouco mostra sobre a complexidade de sua arte e sobre sua importância no cenário internacional. À pergunta sobre sua agenda de exposições, porém, deixa claro que não brinca em serviço. Acostumado ao ofício de ferreiro, não se furta a novos e promissores experimentos, adequando sua obra a propostas e ideais.

Antes mesmo de terminar 2018, Jorge dos Santos já fez planos para outras exposições, levando seu trabalho além-mar. Portugal já está agendado para 2019, com a apresentação de desenhos, esculturas em pequenos formatos e obras que exploram a borracha. “Vou experimentar outras possibilidades em Lisboa”, adianta, lembrando que também recebeu um convite para uma mostra na Filadélfia, Estados Unidos, ao qual pretende atender.

O Mamm fica localizado na Rua Benjamin Constant 790, no Centro da cidade.

Outras informações: (32) (32) 2102- 3964 (Procult)

3229-9070 (Mamm-UFJF)

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