‘A promessa do Brasil pode se realizar’, diz Adriana Calcanhotto


:: TM Cultura em 04/10/2018 16:10 ::

No celular, ouvi a voz que me era tão familiar. Quando criança, na época em que ainda não tinha CD player, minha madrinha, sua fã ávida, gravava fitas cassete – que denunciam minha idade – com seus discos, e lá pelos 10 anos, me levou ao meu primeiro show de “gente grande”, Adriana Calcanhotto, no Salão Azul do Quitandinha, em Petrópolis (RJ). Fomos ao camarim, e uma pronta Adriana trocou umas palavras conosco e autografou o setlist do show, no tempo em que não se tirava foto assim a torto e a direito como hoje. Das fitas até a vida adulta, sempre acompanhei, com maior ou menor intensidade, o trabalho da artista, que musicou diversos momentos da minha trajetória e de tantas pessoas, como ela mesma conta, com o tal timbre que tanto me encanta.

“O relato de diferentes gerações é uma coisa que vai agregando afetos ao longo da vida. É muito bom ouvir essas histórias. Tem pessoas que conversam comigo e falam de canções minhas que eram a música deles quando casados, depois nasceram os filhos, que ouviram ‘Partimpim’… Enfim, coisas muito bonitas que fazem a gente acreditar que uma trajetória super vale a pena, às vezes por mais dura que possa parecer em alguns momentos”, diz Adriana.

adriana-calcanhotto.jpgFoto: Divulgação

De volta a Juiz de Fora, a cantora traz também seus próprios afetos, no show “A Mulher do Pau Brasil”, espetáculo pensado como uma conclusão da residência artística de Adriana Calcanhotto na Universidade de Coimbra, onde esteve nos últimos dois anos entre cursos e apresentações. A canção-título do espetáculo tem duplo tom autobiográfico, ao repetir os passos da artista na vida (“Nasceu no Sul / Foi para o Rio / E amou como nunca se viu”) e ao retomar o título de um de seus espetáculos pelos idos de 1980. “Eu resgatei o nome porque me dei conta de que aqueles assuntos, meio que em ondas, aparecem no meu trabalho. E como vivi essa experiência em Coimbra, de ver o Brasil ‘de fora’, que é tradicional de muitos universitários brasileiros, pensei que “A Mulher do Pau Brasil’ era um bom nome, soava ainda atual e dava essa ideia de continuidade, de temas de modernidade, antropofagia e poesia ‘pau brasil’, que me acompanham desde aquele momento até o início deste show, até aqui”, explica Adriana.

O repertório traz composições sobre dores bastante particulares, que inicialmente remetem aos trovadores lusitanos, como “Mortal loucura”, música criada pelo compositor José Miguel Wisnik a partir de versos barrocos do poeta baiano Gregório de Matos (século XVII). Partindo para dores que transcendem o individual, sobretudo no Brasil atual, a cantora interpreta composições potentes como a funkeada “As Caravanas”, de Chico Buarque, que toca em questões como racismo; a atualíssima “O cu do mundo”, de Caetano Veloso (A mais triste nação/Na época mais podre/Compõe-se de possíveis/Grupos de linchadores) e a pessimista “Nenhum futuro”, de João Bosco e Francisco Bosco. Num passeio pelo cancioneiro popular brasileiro, aparecem velhas conhecidas como “Eu sou terrível”, de Roberto e Erasmo (que, nos anos 1980, abria o show homônimo, e agora fecha), e influências claramente tropicalistas, como “Geleia geral” (Gil e Torquato Neto). Das autorais, Adriana pinçou clássicos como “Inverno”, “Vambora” e “Esquadros” e também “Vamos comer Caetano”, que permeia o conceito antropofágico da apresentação, e da própria carreira da cantora.

Impactante em diversas linguagens – a música, a poesia que as entremeia e a concepção visual que explode em vermelho no cenário, iluminação e figurino – “A mulher do Pau Brasil” devolve Adriana Calcanhotto aos palcos carregada de referências de uma vida e do espírito vanguardista que sempre marcou seu trabalho, mas também munida, depois da temporada em Coimbra, da rica experiência de poder olhar suas raízes pelo “lado de fora”. Em entrevista à Tribuna, ela fala sobre os caminhos que a levaram a este trabalho, sobre ele próprio, e mata uma egoísta curiosidade desta que escreve, na última pergunta.

Tribuna – Você sempre flertou com ideias modernistas e antropofágicas, bem como com outras linguagens artísticas que não a música, traço que fica claro ao longo de sua obra. Como você acha que este traço aparece neste trabalho, sobretudo depois de sua residência artística em Coimbra?

Adriana Calcanhotto – “Poesia Pau-Brasil”, o movimento modernista, a Semana de 22, Oswald, Tarsila, Mário de Andrade… tudo isso é um universo que sempre me interessou muito, no qual fui me aprofundando e fui prestando atenção em trabalhos de pessoas da minha geração ou não, trabalhos impactados por isso. Agora em Coimbra, havia outras opções, outros temas, outros universos com os quais eu gosto de mexer, como a poesia trovadoresca, por exemplo. Eu poderia ter desenvolvido outras coisas em Coimbra, mas foi muito forte essa consciência de estar lá, que é uma experiência que muitas pessoas tiveram: de pensar no Brasil enquanto identidade, pensar no Brasil independente, como fez José Bonifácio, os Inconfidentes, a teoria José Murilo de Carvalho… tudo isso ficou tão presente, tão linkado a Oswald de Andrade, às ideias dele, que foi meio irresistível seguir por esse caminho, foi natural, na verdade.

– Como foi a experiência em Portugal e o que representa o título de embaixadora da Universidade de Coimbra?
– Eu não tenho tarefas fixas, na verdade é só uma constatação de uma coisa que já acontece. Depois de ser nomeada embaixadora, passei a dar aula na faculdade de letras, e é um encontro muito feliz. Eu adoro cada vez mais representar o encontro e a cumplicidade da universidade com o Brasil desde sempre. A universidade tem 728 anos, e nós contamos 500 de Brasil, sendo que, destes, cento e poucos são de Niemeyer, então nós somos jovens, e a Universidade de Coimbra nos acompanha, está sempre do nosso lado pela nossa identidade,nossa liberdade e nossa independência. Pode parecer pretensioso, mas acho natural ser a embaixadora da instituição (risos).

– Você fala sobre o privilégio de poder ver o Brasil de outro ponto de vista. O que você viu?
– Considerando que faz dois anos que estou em Coimbra olhando o Brasil de lá, acho que tem uma efervescência grande. Acho que estamos sentindo dores do crescimento. Às vezes se fala essa expressão “dores do crescimento”, e a gente pensa sempre em termos de economia, mas acho que estamos vivendo uma série de outras dores. Por outro lado, o fato de termos tido manifestações democráticas pacíficas, a sociedade está podendo dizer o que quer e o que não quer. Temos muito que aprender e muito que pesar para não repetir a história, embora seja da natureza humana fazer essa repetição. Mas acho que estamos caminhando, muitas coisas já foram muito piores, e acho que, quando a gente olha de longe, dá para ver um pouquinho mais alargado, no sentido de que as coisas podem dar certo, de que a promessa do Brasil pode se realizar.

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