Bolsonaro precisa condenar agressões e controlar seus eleitores


:: Kennedy Alencar em 10/10/2018 22:44 ::

Há algo em comum em todos os casos recentes de agressões físicas após o primeiro turno das eleições: todos os suspeitos são apoiadores do candidato do PSL, Jair Bolsonaro. Num deles, houve a morte de um capoeirista na Bahia que votou no PT.

É importante que a polícia investigue e reprima e que a Justiça puna. As autoridades públicas e nós, jornalistas, temos de ser muito firmes na condenaçãoo veemente da violência como arma de luta política.

Bolsonaro é um candidato antidemocrático. Tem histórico de declarações autoritárias e preconceituosas. Ele precisa fazer uma condenação pública muito forte para conter o ânimo de eleitores violentos.

É um erro naturalizar o discurso de ódio. O mestre de capoeira Romulado Rosário da Costa está morto. Uma moça em Porto Alegre tem a marca de uma suástica feita a faca em seu corpo. Isso é ódio político. Agir com violência é uma ação típica de extrema-direita.

É a velha história do guarda da esquina. O problema são pessoas agressivas que estão se sentindo mais empoderadas para agir com violência contra adversários políticos.

Isso tem de ser condenado pelo Bolsonaro, por Fernando Haddad, pelo presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Dias Toffoli, e pela presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Rosa Weber. Cabe também uma palavra do presidente Michel Temer.

Quando sofreu um atentado abominável em 6 de setembro, Bolsonaro contou com a solidariedade e o apoio de todos os candidatos à Presidência, de todas as autoridades públicas relevantes e de muitos jornalistas. Houve condenação veemente do país inteiro. Eu disse que ele não poderia ser responsabilizado pelo atentado que sofreu. Lembrei que a vítima nunca deve ser responsabilizada.

Mas Bolsonaro precisa se responsabilizar por seus eleitores, sob pena de machistas se sentirem mais livres para exercer seu machismo, de preconceituosos e violentos se sentirem mais livres para espalhar o ódio. Quem almeja a Presidência da República tem de agir com responsabilidade política e pessoal em relação a todos os cidadãos. Se ele não rechaçar e controlar esse tipo de violência, deve ser responsabilizado por incitação ao ódio e por estímulo à violência.

A polícia brasileira é violenta. O Brasil é violento. Um delegado não pode suavizar uma agressão com símbolo nazista _marca de um dos maiores crimes contra a humanidade. Nossos policiais, que têm filhos e filhas, pais e mães, irmãos e irmãos, precisam agir com rigor para punir pessoas que queiram fazer da violência uma arma política.

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Fuga lamentável

Lamentável que Bolsonaro não possa comparecer a debates por recomendação médica. Mas o candidato deveria encontrar forma de expor as suas ideias, algo que ele vem se recusando a fazer _exceto em ambientes confortáveis do ponto de vista editorial e político.

O país precisa conhecer quais são as propostas de Bolsonaro. Já houve ruído recente, por exemplo, entre Bolsonaro e Paulo Guedes, anunciado como eventual ministro da Fazenda. O país corre o risco de eleger um presidente sem debater e conhecer suas ideias.

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Telhado de vidro

É do interesse de Paulo Guedes esclarecer suspeitas de fraude com uso de recursos de fundos de pensão. Afinal, ministro da Fazenda precisa estar com a ficha limpa para fazer seu trabalho.

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Ilusão do mercado

A plataforma ultraliberal de Paulo Guedes terá dificuldade de ser assimilada pela bancada conservadora eleita para o Congresso. Essa bancada tem setores corporativistas que resistiram a propostas parecidas feitas por Temer.

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Bolsonaro larga na frente

A pesquisa Datafolha divulgada hoje dá a Bolsonaro vantagem confortável sobre Haddad _58% a 42% dos válidos. A fotografia é muito positiva para o candidato do PSL, fazendo dele, hoje, franco favorito. Esses números devem reforçar a estratégia de Bolsolnaro de fugir de debates e sabatinas.

Para Haddad sonhar com uma virada em pouco menos de três semanas, será necessário tirar votos diretamente de Bolsonaro, buscar eleitores que hoje sinalizam que votariam em branco ou nulo e convencer parcela que se absteve no primeiro turno a comparecer na segunda etapa. O petista deverá fazer uma campanha ainda mais dura no rádio e na TV.

Ouça os comentários no “Jornal da CBN – 2ª Edição”:

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