Mil armas de fogo são retiradas das ruas pela PM em Juiz de Fora


:: TM Cidade em 09/11/2018 08:58 ::

apreens%C3%B5es-em-Juiz-de-Fora.jpgCerca de mil armas de fogo foram apreendidas pela Polícia Militar em Juiz de Fora e nas 85 cidades que fazem parte da 4ª Região da PM, este ano. O número é 10% superior ao de armamentos recolhidos em 2017. Como resultado, a própria corporação aponta a redução dos crimes violentos na região da Zona Mata, uma vez que o material pode circular pelos municípios.

Enquanto no ano passado foram registrados 1.457 crimes dessa natureza, em 2018 houve redução de 36,86% com 960 casos. O levantamento da PM compreende o período de 1º de janeiro a 22 de setembro deste ano, quando 944 armas foram retiradas de circulação. No mesmo intervalo de tempo em 2017, foram 859. O crescimento é significativo para os policiais, uma vez que representa menos armas ilegais nas ruas. “Todas elas estavam na posse de pessoas que não têm capacidade para manuseá-las, não possuíam registro e estavam inseridas no mercado de forma ilegal, colaborando para ocorrências de homicídios e de roubos”, ressalta o assessor de comunicação organizacional da PM, major Jovanio Campos.

Somente em Juiz de Fora, o acumulado de apreensão nos dois anos é de 494 armas, sendo que foram 223, em 2018, e 271, no ano anterior. A retirada desse armamento das ruas, segundo a corporação, deve-se a um trabalho pautado mais na cientificidade do que no empirismo, uma vez que um mapeamento é realizado sobre as ocorrências criminais. “Nos registros são possíveis mapear bairros, ruas, autores, período do dia e tipo de crime. Se existe algum aspecto comum ao bairro A ou bairro B. Se existem autores que estão presentes nas mesmas situações. Com isso, é possível obter informações, possibilitando o direcionamento de recursos”, pontua major Jovanio.

Segundo o policial, a atenção dos militares está voltada para os crimes violentos, que são os que mais trazem insegurança para a população, como roubos, estupros e assassinatos.

“Dentre eles, sabemos que o homicídio e o roubo têm ligação com o tráfico de drogas. Então, quando empregamos nossos esforços para barrar o tráfico, há uma repercussão positiva na redução desses dois crimes. Nesse contexto, a apreensão das armas é importante, porque elas fortalecem o comércio ilegal de entorpecentes e resultam em homicídios”

Esse trabalho de acompanhamento de autores e vítimas envolvidas em crimes que podem culminar em homicídios é chamado de repressão qualificada. “A ação que compõe essa forma de intervenção não é o policial sair para a rua e abordar todas as pessoas indistintamente, mas sim uma abordagem de pessoas que estão identificadas. São cidadãos que estão no rol da PM e que têm seus passos acompanhados pelos policiais, porque são conhecidos pelo seu envolvimento com o crime. Os policiais possuem um catálogo onde consta a identidade dessas pessoas, as fotos e os endereços”, explica.

Top 10

De acordo com o major, a cidade está dividida em territórios, nos quais cada companhia de Polícia Militar tem uma listagem com os nomes que são alvos de monitoramento. “Essa listagem é chamada de top 10, com os dez criminosos que precisam do acompanhamento, a fim de evitar reincidência criminal. Hoje, por meio desse mapeamento, consegue-se verificar se determinado crime está mais frequente em determinado local e ligá-lo ao nome de quem frequentemente o pratica, o que favorece a prisão. Esse trabalho tem possibilitado a redução dos crimes”, ressalta o assessor da PM. O êxito de todo esse empenho fez a Taxa de Resposta Imediata (TRI) alcançar o índice de 34%, sendo que a meta pactuada pela PM para o ano de 2018 era de 27%. Essa taxa diz respeito às ações em que os policiais conseguem, no momento do flagrante, ter sucesso na prisão do autor e na localização do produto do crime.

Revólveres e pistolas de pequeno porte são maioria

Entre as armas apreendidas, as mais comuns são as de pequeno porte. Segundo major Jovanio Campos, isso se deve ao fato de serem as mais fáceis de esconder. “Não adianta, para quem vai cometer um ilícito, ter uma arma calibre 12, que é difícil de despistá-la. Então, a maioria das apreensões são revólveres e pistolas de tamanho menor, que passam despercebidos nas vestes, nos bolsos, nas mochilas e nos carros.” Sobre a origem delas, o militar ressalta que é difícil falar com precisão, uma vez que as apreensões que acontecem em outros estados e em Minas Gerais abarcam também armas oriundas de outros países e que conseguem entrar com facilidade no Brasil. “Em Ubá, foram apreendidas pistolas novas, na caixa, que vieram de fora, mas não é comum aqui aparecerem armas modernas, como um fuzil AK-47 ou uma AR-15, que são modelos que costumamos ver em apreensões no Rio de Janeiro”, assinala o major.

jovanio-2.jpgDe acordo Jovanii, a cidade está dividida em territórios, nos quais cada companhia de PM tem uma listagem com os nomes que são alvos de monitoramento (Foto: Marcelo Ribeiro)

Em janeiro deste ano, uma ação conjunta entre os dois batalhões da Polícia Militar de Juiz de Fora resultou na apreensão de mais de 50kg de drogas, três armas e no desmantelamento de um grupo que usaria a cidade como entreposto de distribuição de entorpecentes e de armas de uso restrito, que seriam trazidas do Paraguai. Três homens, que eram da cidade de Montes Claros, foram presos. A suspeita era de que o trio tinha ligação com a facção Primeiro Comando da Capital (PCC). O flagrante ocorreu em dois imóveis, no Bairro Ipiranga, Zona Sul. Em junho, um homem, suspeito de ser o maior traficante de armas da região foi preso no Centro de Juiz de Fora. Havia contra ele um mandado de prisão expedido no Paraná, onde, em novembro de 2017, ele foi flagrado pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) com quatro pistolas e 560 munições (calibres 9mm, 380 e 38) escondidas dentro do tanque de combustível. Ele trafegava em um veículo, com placa de Juiz de Fora, pela BR-277, no município de Santa Terezinha de Itaipu, no oeste paranaense.

Redução nos homicídios

Conforme dados levantados pela Tribuna, os homicídios registrados na cidade estão em queda. De janeiro a setembro de 2017, ocorreram 102 mortes violentas. No mesmo período deste ano, foram 71 casos, ou seja, são 31 ocorrências a menos. A estatística do jornal leva em conta, além dos homicídios consumados, os óbitos ocorridos em hospitais posteriormente aos crimes, mas em decorrência deles, incluindo casos investigados, como latrocínio (roubo seguido de morte) e feminicídio.

A queda no número de mortes também é ocasionada pela retirada de armamento das ruas. “Para a diminuição dos homicídios, temos que trabalhar em duas vertentes: no combate ao tráfico de drogas e na apreensão de armas de fogo. Com essas ações, os índices estão sendo reduzidos, e esse é o nosso foco, atualmente.” Ele lembra que, para desempenhar a segurança pública, a PM precisa contar com a compreensão da sociedade. “É sempre importante esclarecer que a corporação está a serviço dos cidadãos. Então, nossa função é fazer com que a pessoa saia da sua casa e volte de forma segura. Isso é a ordem pública, cujo papel é nosso. Para que isso possa acontecer, às vezes, teremos que cercear, temporariamente, os direitos do cidadão, fazendo uma abordagem, parando um veículo, e precisamos que a população tenha essa consciência. Solicitamos às pessoas que atendam a solicitação dos policiais. Às vezes, eles estarão armados ou até com arma em punho, mas estão preparados para portá-la e não há motivo para receio”, orienta.

A população pode ajudar nos trabalhos de prevenção da PM, utilizando o Disque 81 para fazer denúncias, pois, por meio delas, a PM também obtém subsídios para conseguir junto à Justiça mandados de busca e apreensão e de prisão para trabalhar preventivamente.

Impacto nos leitos do SUS

Levantamento do Ministério da Saúde, que mapeia a mortalidade das armas de fogo no Brasil, apontou que, em 2016, foram 24.900 internações relacionadas a ferimentos a bala no Sistema Único de Saúde (SUS), número 5% maior que em 2015, quando houve 23.740 internações desse tipo. Reportagem da Tribuna mostrou que 264 pessoas deram entrada no Hospital de Pronto Socorro (HPS), em 2016, vítimas de arma de fogo. O número era 16% maior do que o de 2015, quando 226 baleados foram atendidos. Segundo a Secretaria de Saúde, para dar conta dos feridos, o Serviço de Urgência e Emergência demanda o envolvimento de uma equipe multidisciplinar com médico, cirurgião, ortopedista, fisioterapeuta, enfermeiros, técnicos em enfermagem, exames complementares, tomografia, ultrassom e diária de UTI, que representam altos custos para os cofres públicos. A permanência de um paciente grave em decorrência de violência por muito tempo no hospital é agravante que impacta a disponibilidade de leitos.

Especialista alerta para necessidade de barrar entrada de armas no país

De acordo com o sociólogo especialista em segurança pública, Luis Flávio Sapori, as armas de fogo são responsáveis por cerca de 80% dos homicídios no Brasil. Ele ratifica que, quando elas são retiradas de circulação, a consequência é a redução do risco de alguns conflitos cotidianos resultarem na morte das pessoas envolvidas. “Deve-se considerar também que a PM melhorou sua forma de atuação preventiva e ostensiva, já que tem adotado procedimentos operacionais eficazes de patrulhamento em áreas de risco e, certamente, isso contribui para a queda dos homicídios”, ressalta, acrescentando que, para alcançar resultados, a Polícia Militar intensificou a fiscalização das unidades de ponta.

O especialista pondera que, além do recolhimento das armas, é preciso barrar a entrada delas no Brasil. “A União tem tido dificuldade em melhorar a vigilância das fronteiras. Isso é um fenômeno antigo, que pode e deve ser melhorado e contido. De qualquer maneira, há evidências de que boa parte das armas de fogo que estão presentes no nosso dia a dia são de calibres menores, de fabricação nacional e são compradas legalmente e acabam caindo nas mãos de criminosos em diversos assaltos e furtos, ou seja, o mercado clandestino de arma de fogo se alimenta muito do mercado legal.”

Sapori enfatiza que a arma de fogo impacta mais diretamente os crimes de homicídios e de roubos, que envolve ameaça e uso da força. “Ela é o principal instrumento dos assaltos em Minas e no Brasil. Se o criminoso tem menos disponibilidade de usar arma de fogo, de adquiri-la, certamente ele vai perpetrar com menos intensidade esse crime ou vai migrar dos roubos para os furtos, que é um crime menos violento. Retirar armas de fogo das ruas é uma estratégia inteligente por parte das forças de segurança pública, a fim de reduzir a incidência de crimes violentos como um todo”, pontua.

O post Mil armas de fogo são retiradas das ruas pela PM em Juiz de Fora apareceu primeiro em Tribuna de Minas.

Clique aqui para ver esta matéria na fonte original.

Anúncios