Bolsonaro só se elegeu porque não pude concorrer, diz Lula


:: Kennedy Alencar em 06/12/2018 23:07 ::

“Bolsonaro só ganhou porque não disputou contra mim. E agora Moro ganha a chance de acumular mais poder”, disse o ex-presidente Lula por meio de uma carta que enviei no dia 29 de novembro, quando contei que estava fazendo um documentário para a BBC World News e que gostaria de entrevistá-lo.

Por carta, Lula respondeu ontem, 5 de dezembro, que foi “condenado sem provas e, mais ainda, sem ter praticado qualquer crime”. Ele escreveu: “Todos sabem que o apartamento não é meu, e a sentença do Moro fala que me condenou por ‘atos indeterminados’. Fui condenado por ter sido o presidente da República mais bem-sucedido e que mais fez pelos pobres nesse país, e porque seria eleito para ser presidente de novo.

Por isso, me prenderam. E, por isso, não me deixaram dar entrevistas, em especial durante as eleições. A verdade dói para uma sentença construída sobre mentiras e para poderosos que têm medo da vontade popular. Por isso, eu me considero um preso político”.

Lula lembrou que, em um depoimento, perguntou para Moro se poderia dizer para os seus netos que tinha sido “julgado por um juiz imparcial”. O petista afirmou que não recebeu tratamento isento porque Moro “sempre teve uma agenda política por trás do que ele fez”.

Lula comentou a atuação do ex-juiz federal e futuro ministro da Justiça: “O que é uma pena, porque distorce um trabalho que poderia de fato ter contribuído para o país, se feito de maneira honesta. Mas encheram ele de poder e ele se achou acima do bem e do mal, pois não deixa de ser desvio de função o juiz que usa da violência da lei para perseguir alguém”.

“Moro sabia que, se agisse de acordo com a lei, teria que me inocentar, e, assim, eu seria eleito presidente. E ele não queria isso. Então, na sentença, ele fez política e não justiça. E agora se beneficia disso. Bolsonaro só ganhou porque não disputou contra mim. E agora Moro ganha a chance de acumular mais poder”, escreveu o ex-presidente.

Ao falar do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, Lula afirmou que “foi um golpe”. Segundo ele, o senador “Tasso Jereissati, ex-presidente do PSDB, já admitiu que eles sabotaram a democracia, ao não reconhecer as eleições de 2014. E sabotaram o governo”.

Para Lula, “o golpe explodiu na mão dos seus agentes políticos porque eles eram descartáveis. O PSDB e o MDB perderam o rumo quando decidiram detonar a política e a democracia”.

Na visão do petista, “quem mais sofreu foram os brasileiros”. Lula avaliou que, “sem a sabotagem, a crise econômica provavelmente não passaria de 2015”.

Ele disse: “O país manteria sua credibilidade e rumo democrático. Ao invés disso, passamos a mensagem de que esse é um país onde o vice passa rasteira no titular e eleições não valem. Primeiro, derrubaram uma presidente legitimamente eleita. Depois, me prenderam e impediram que eu, mesmo liderando as pesquisas e sendo essa a vontade do povo, disputasse as eleições”.

A respeito dos rumos do país sob o novo governo, Lula fez a seguinte reflexão: “Vamos ver para onde Bolsonaro irá levar o país. A razão da vitória dele é sabida por quem conhece história: quando se nega a política, o que vem depois é sempre pior. Foi assim em todo o momento histórico, inclusive na Alemanha dos anos 1930. Aqui no Brasil se negou a política, se interditou o diálogo. Taí o resultado”.

Indagado por carta sobre um eventual risco para a democracia brasileira com a eleição de Bolsonaro, Lula respondeu: “Estou preso sem motivo. Fui impedido de disputar uma eleição que venceria e estou proibido de dar entrevistas. Se fizeram isso com um ex-presidente da República, se mataram a vereadora do Rio Marielle Franco e não conseguem revelar os assassinos, claro que a situação é de ameaça para os direitos dos brasileiros”.

Por último, Lula disse que gostaria muito de conceder uma entrevista e contou o que gostaria de dizer a brasileiros e estrangeiros se pudesse sair da prisão: “Se saísse da prisão, seria porque a justiça foi feita e a verdade prevaleceu, porque não cometi crime nenhum”.

Ele emendou: “Dediquei a minha vida para recuperar a democracia nesse país, para apoiar a luta dos trabalhadores da cidade e do campo, dos indígenas, dos estudantes, do desenvolvimento econômico do Brasil com a inclusão social. Defendi a imagem do Brasil e um caminho melhor para o meu país em cada viagem que fiz ao exterior, com cada autoridade estrangeira que encontrei. Defendi um mundo mais justo, sem fome na África. Queria que implantassem lá programas sociais inspirados nos que reduziram tanto a fome e a pobreza no Brasil. Atuei por um acordo global de meio ambiente na Dinamarca em 2009. Agora, querem liberar a destruição da Amazônia. Não acharam um centavo irregular nas minhas contas. Aí inventaram que eu tinha um apartamento. Gente com ambição por dinheiro e poder desmedida, inclusive algumas das famílias mais ricas do Brasil, [todas essas pessoas] precisavam me tirar do caminho, porque, senão, eu voltaria a ser presidente do Brasil. Então, ao sair daqui, agradeceria a todos que me apoiaram, em especial à vigília que me faz companhia desde que fui preso ao lado do prédio da PF [Polícia Federal]. E perdoaria os preconceituosos, as pessoas cheias de ódio no coração que me prenderam aqui. Basta elas pedirem desculpas. Isso ainda vai acontecer. Quem saiu de onde eu saí e fez no mundo o que eu fiz, não desiste. Aprendi isso com a minha mãe, que criou seus filhos sozinha. Eu não vou desistir”.

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Outro lado

Por meio de mensagem, o ex-juiz e futuro ministro da Justiça, Sergio Moro, respondeu às menções a ele feitas por Lula na carta.

Moro escreveu em inglês. Segue a tradução: “O ex-presidente Lula foi condenado por ter sido o mentor do escândalo da Petrobras. Cerca de dois bilhões de dólares foram pagos em propina por meio de contratos com a Petrobras durante a Presidência dele [Lula]. O apartamento é parte de propinas que foram diretamente para benefício pessoal. Aliados políticos próximos, como [José] Dirceu e [Antonio] Palocci, também foram condenados por enriquecimento pessoal em outros casos. O último destes confessou. Ele, Lula, está respondendo a outras acusações. A corte direta de apelação [Tribunal Regional Federal da 4ª Região] confirmou a condenação. Cortes superiores em Brasília confirmaram a ordem de prisão, o que reforça a condenação [em primeira instância]. Não foi uma decisão de um homem só. Minha atual posição no [futuro] governo não tem nada a ver com a condenação. Eu nem conhecia o presidente eleito quando proferi a sentença em 2017”.

*

What Happened to Brazil…

Diante da falta de resposta positiva a um pedido judicial para falar com o ex-presidente, entrevista que considero de interesse público e que obedeceria aos princípios constitucionais de liberdade de imprensa e de expressão e também de garantias individuais, resolvi enviar a carta para dizer ao ex-presidente que estava tentando ouvir a opinião dele a respeito dos acontecimentos no Brasil entre 2013 e 2018.

Enumerei temas que gostaria de tratar com Lula, caso tivesse tal oportunidade. O documentário, uma série em três capítulos, será exibido pela BBC World News a partir de 12 de janeiro de 2019. O título será “What Happened to Brazil…”. Em português, o nome será “Brasil em Transe”. Leia aqui a reportagem em inglês sobre a carta de Lula.

Já foram entrevistados para o documentário o presidente Michel Temer, os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Dilma Rousseff, o ministro do STF Ricardo Lewandowski, o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot, a economista Laura Carvalho, a socióloga Esther Solano e outros brasileiros que viveram os grandes protestos de 2013, 2015 e 2016. Todos foram personagens dessa história recente e testemunharam as gigantescas mudanças que o país atravessou nos últimos cinco anos.

O presidente eleito, Jair Bolsonaro, e o futuro ministro da Justiça, Sergio Moro, também foram convidados, mas não aceitaram, até agora, conceder entrevistas.

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