Opinião: E o enclave foi entregue – Denise Fraga


A casa parecia cada dia maior. Chegou a abrigar doze de nós e agora os três que restavam, vez ou outra, sentiam-se flutuar. Alguns cômodos passavam dias sem que se desenhasse pegadas nas camadas de pó abandonadas pela faxineira. Com o tempo, o cotidiano de meus tios e minha prima foi se concentrando em vinte por cento dos metros quadrados, deixando o resto da casa ir sendo absorvido pela memória. Mas havia o imenso quintal a limpar todas as manhãs. Os velhos dobbermans ainda davam conta do serviço de segurança mediante a ração barata, um pouco d’água e a lavagem do quintal no dia seguinte.

Era feriado. Meus tios estavam apreensivos. Tinham ouvido a conversa ao telefone, a combinação do comboio dos carros para a praia, mas se despediram de minha prima na calçada fingindo alegria e indiferença. Não podiam mais largar a casa sozinha, tampouco impedir que a filha se divertisse. Nestas horas, a vendinha de bebidas armada ao lado do portão até fazia-lhes gosto. Meu tio já andava em conversas mais demoradas com o tal do Xuxa, que até lhe abria o portão pro carro quando chegava. As casas sem reboco do fim da rua vieram se aproximando ano após ano, a comunidade havia crescido em torno, criando um enclave de resistência de meus velhos tios na casa da minha infância.

O som dos tiros era fundo permanente, mas não havia balas perdidas e isso já era um grande motivo para continuarem ali. Meu tio até se divertia com um jogo macabro: conseguia dar o nome da arma ao som do estopim, sem nunca ter lidado com uma, apenas pela cultura de guerra da vizinhança. Mas não havia assaltos e, em seus quase cinquenta anos de bairro, nunca tinha visto um corpo estendido no chão.

Despediram-se da filha no fim da tarde, estavam tomando a sopa vendo o jornal, quando ele bateu os olhos no quintal. Largou a colher e correu. Lá estava deitado seu velho Mengo, sem sangue, sem nada. Ele desconfiava, andava caído o cachorro. Já nem lembravam mais de quantos anos tinha.

Ameaçou chorar, mas a angústia de achar um modo para se livrar do corpo do animal naquele fim de semana vazio acabou roubando suas lágrimas.

Passaram o sábado sem saber o que fazer com o cachorro coberto no cimento à vigília da cadela Fla. Não ousou contar para a filha no telefone temendo estragar seu raro passeio, tampouco podia arriscar sua hérnia de disco tentando tirá-lo dali. Com o resto da família fora e não tendo a quem recorrer, decidiu apelar pro Xuxa.

No cair da noite, sentiu um arrepio de medo enquanto ajudava o novo amigo a por no porta malas do carro o corpo do velho companheiro envolto num saco de lixo. Escondendo o desespero, experimentou a adrenalina daquele mundo durante o trajeto até o terreno mais próximo. Voltou abatido, deu uma gorjeta ao parceiro, sentou na mesa e chorou. De medo, de pena, de vergonha, de tristeza e saudade.

Quando minha prima chegou de viagem, prolongaram o jantar arranjando a venda da casa.


Fonte: Opinião

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Opinião: Prefiro queimar a língua a comer este prato frio – Denise Fraga


President-elect Donald Trump speaks to members of the media during his meeting with President Barack Obama in the Oval Office of the White House in Washington, Thursday, Nov. 10, 2016. (AP Photo/Pablo Martinez Monsivais) ORG XMIT: DCPM107
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Vou comprar um despertador. Acordei com um Trump na cara. Um balde de água fria quase físico. O celular ainda não tinha tocado, fui fazer um xixi, resolvi dar aquela checadinha do quanto de delícia eu ainda teria debaixo das cobertas e os preciosos quarenta minutos se dissolveram imediatamente em insônia angustiante.

“EUA elegem Trump!” – gritava a tela do meu celular. Quem dorme com essa? Me revirei na cama com o peso no peito. Eu não achava possível. Me senti uma tonta, uma ingênua. Não achava verdadeiramente possível. As pesquisas até apontavam o crescimento das possibilidades do cidadão, mas eu assimilava tudo como um roteiro cinematográfico, uma nova série a me pregar no sofá, nunca uma realidade. Achei que não chegariam a isso. Achei que não chegaríamos a isso. Na verdade, não achava que tudo poderia chegar ao que tem chegado. O que anda acontecendo? Que tempos são esses? Levantei da cama para entender os tempos.

No WhatsApp, uma avalanche de mensagens que diziam “Não acredito! Muito triste! É o fim do mundo!” logo se misturavam aos “kkk” para os memes velozes. Como a Estátua da Liberdade, eu também queria cobrir meu rosto. Ao menos fechar os olhos para tentar entender como um homem com aquele discurso é mesmo eleito presidente da maior potência do planeta. Senti medo.

Mudo o aplicativo para ligar o rádio –adoro rádio, gente falando ao vivo– mas logo sou interrompida pela mensagem de um amigo que me pedia um vídeo de parabéns para outro amigo que fazia aniversário.

– Vai ter festa? – pergunto.

– Não, só os vídeos mesmo.

– E o Trump, hein?

De resposta, um solitário emoji de um macaco que, como a Estátua da Liberdade, também tapava seus olhos.

Resolvo abrir os meus. Preciso entender. Volto ao rádio: informações sobre o trânsito. Santo Deus! O Donald Trump é o novo presidente dos Estados Unidos! Aquele que fala em construir muros! É ele que vai lidar com o Putin! Quero prestar atenção!

Minha mãe me liga: minha tia morreu. Caio no choro, culpada por chorar junto com a tragédia familiar minhas lágrimas de âmbito mundial. Abro o grupo da família para me solidarizar à dor e vejo dois únicos posts: a Estátua da Liberdade abraçada ao Cristo Redentor e um cachorrinho dançando, rodeado de corações, desejando bom dia. Bom dia?! E a tia?! E o Trump?!

Para! Espera! Não estou entendendo nada! Me deixem prestar atenção! Quero tentar entender. Mas, por favor, não me roubem o susto, não aplaquem minha vontade de gritar, não digiram por mim. Prefiro queimar a língua a comer este prato frio.

Quero ver a reação primeira, o momento indigesto, o acontecimento antes do processamento. Quero ver o vermelho da bofetada que recebi esta manhã antes que alguém lhe ponha panos quentes, antes que entre no processador da mídia, dos cientistas políticos, dos explicadores do mundo. Quero que alguém me dê a mão agora, me telefone neste momento, nesta mesma manhã onde se acordou em pesadelo. Quero viver junto o fato, antes da análise, antes dos memes, dos emojis, da morte.

Vou comprar um despertador antigo. Digital e já antigo. Que me acorde com um bip romântico, sem letras ou imagens. Que me dê tempo para tomar um café antes que o dia me atropele já digerido e decomposto em análises.


Fonte: Opinião

Opinião: Preciso confiar em quem pinta o cabelo – Denise Fraga


Nosso amigo Ricardo está ficando com cara de cantor de tango. Faz tempo que nos conhecemos, de quando em quando nos encontramos, mas, no nosso último jantar, eu não conseguia prestar atenção na conversa, tentando entender o que havia de errado com ele. Viemos envelhecendo juntos já faz bem uns vinte anos. Todos nós apresentamos as evidências disso em nossas peles, músculos, olhos, dentes, cabelos ou falta deles. Pois foi nos fartos cabelos de Ricardo que matei a charada do milongueiro daquela noite em nossa mesa.

Nosso amigo continua com os mesmos cabelos de vinte, quiçá trinta anos atrás. Herdou de seu pai um gene poderoso de ancestrais indígenas que, aos quase sessenta, mantêm seus cabelos totalmente negros. Acontece que seu rosto envelheceu como o de sua avó alemã, de pele branca e sensível, e agora Ricardo precisa carregar a verdadeira cor de seus cabelos com uma tintura mequetrefe feita no barbeiro da esquina.

Todo mundo jura que ele pinta o cabelo. Eu juro que não. Bem sei o constrangimento que seria para esta doce figura ver-se em tal situação. Um homem aberto, de olhos brilhantes, sem nenhuma vaidade e que balançou a cabeça dando risada quando eu lhe disse que talvez precisasse pintar o cabelo para parecer que não pintava o cabelo.

Seriam as mais autênticas luzes feitas na história. Luzes para auxiliar o tempo, que esqueceu de agir em suas madeixas, acabando por lhe dar aparência contrária ao que fez com a sua sabedoria. O homem sábio, claro, amplo e maduro, inacreditavelmente, está ficando com cara de picareta. Porque, que me desculpem os tingidos, mas, com todos os meus preconceitos ativados, ouso declarar que a maioria dos homens que insiste em esconder seus brancos começa a exalar um ligeiro ar de mentira. Não são como as mulheres, a quem os séculos já nos acostumaram a não ver rendidas ao envelhecimento natural. É mesmo um preconceito de minha parte, mas quando vejo homem de cabelo tingido preciso me esforçar para não suspeitar, quiçá injustamente, que tal mentira habite também a alma da sujeito. Parecem-me sempre estar escondendo algo nas costas, como pateticamente escondem os fios brancos de seus cabelos.

Depois do desfile de tinturas, botox e plásticas masculinas que vimos vencer a última eleição, ilustrando discursos igualmente maquiados, só me resta torcer para que pelo menos alguns deles tenham ancestrais com genes poderosos como os de meu amigo Ricardo que possam me acender uma chispa de esperança.


Fonte: Opinião

Opinião: Preciso confiar em quem pinta o cabelo – Denise Fraga


Nosso amigo Ricardo está ficando com cara de cantor de tango. Faz tempo que nos conhecemos, de quando em quando nos encontramos, mas, no nosso último jantar, eu não conseguia prestar atenção na conversa, tentando entender o que havia de errado com ele. Viemos envelhecendo juntos já faz bem uns vinte anos. Todos nós apresentamos as evidências disso em nossas peles, músculos, olhos, dentes, cabelos ou falta deles. Pois foi nos fartos cabelos de Ricardo que matei a charada do milongueiro daquela noite em nossa mesa.

Nosso amigo continua com os mesmos cabelos de vinte, quiçá trinta anos atrás. Herdou de seu pai um gene poderoso de ancestrais indígenas que, aos quase sessenta, mantêm seus cabelos totalmente negros. Acontece que seu rosto envelheceu como o de sua avó alemã, de pele branca e sensível, e agora Ricardo precisa carregar a verdadeira cor de seus cabelos com uma tintura mequetrefe feita no barbeiro da esquina.

Todo mundo jura que ele pinta o cabelo. Eu juro que não. Bem sei o constrangimento que seria para esta doce figura ver-se em tal situação. Um homem aberto, de olhos brilhantes, sem nenhuma vaidade e que balançou a cabeça dando risada quando eu lhe disse que talvez precisasse pintar o cabelo para parecer que não pintava o cabelo.

Seriam as mais autênticas luzes feitas na história. Luzes para auxiliar o tempo, que esqueceu de agir em suas madeixas, acabando por lhe dar aparência contrária ao que fez com a sua sabedoria. O homem sábio, claro, amplo e maduro, inacreditavelmente, está ficando com cara de picareta. Porque, que me desculpem os tingidos, mas, com todos os meus preconceitos ativados, ouso declarar que a maioria dos homens que insiste em esconder seus brancos começa a exalar um ligeiro ar de mentira. Não são como as mulheres, a quem os séculos já nos acostumaram a não ver rendidas ao envelhecimento natural. É mesmo um preconceito de minha parte, mas quando vejo homem de cabelo tingido preciso me esforçar para não suspeitar, quiçá injustamente, que tal mentira habite também a alma da sujeito. Parecem-me sempre estar escondendo algo nas costas, como pateticamente escondem os fios brancos de seus cabelos.

Depois do desfile de tinturas, botox e plásticas masculinas que vimos vencer a última eleição, ilustrando discursos igualmente maquiados, só me resta torcer para que pelo menos alguns deles tenham ancestrais com genes poderosos como os de meu amigo Ricardo que possam me acender uma chispa de esperança.


Fonte: Opinião

Brasil: Segundo turno das eleições ocorrerá em 57 cidades de 20 estados


O segundo turno das eleições municipais, no domingo (30), será realizado em 57 cidades de 20 estados, de acordo com dados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A situação do município de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, foi definida hoje (27) pelo TSE, que deferiu o registro do candidato Dr. Deodalto, confirmando o segundo turno.

Ainda dependem de decisão definitiva dois municípios: Nova Iguaçu, também na Baixada Fluminense, e Montes Claros, em Minas Gerais. No caso dessas duas cidades, pelo menos um dos candidatos depende de decisão final sobre o registro de candidatura, mas essas pendências não impedirão que os eleitores escolham o prefeito no domingo.

Os estados com o maior número de cidades com segundo turno são São Paulo (13) e Rio de Janeiro (8). Ao todo, os eleitores de 18 capitais vão escolher os prefeitos para os próximos quatro anos: Maceió, Manaus, Macapá, Fortaleza, Goiânia, São Luís, Belo Horizonte, Campo Grande, Cuiabá, Belém, Recife, Curitiba, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Porto Velho, Florianópolis, Aracaju e Vitória.

Não haverá segundo turno em seis estados: Acre, Roraima, Tocantins, Piauí, Rio Grande do Norte e Paraíba. Em nove estados, a eleição será apenas para escolher prefeitos de capitais: Rondônia, Amazonas, Pará, Amapá, Maranhão, Alagoas, Sergipe, Mato Grosso do Sul e Mato Grosso.

Em Pernambuco, no Ceará, em Goiás, no Espírito Santo, em Minas Gerais, no Rio de Janeiro, no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande Sul, as eleições serão realizadas nas capitais e em cidades do interior. Apenas os estados da Bahia e de São Paulo terão eleições só no interior.

Confira as cidades e os candidatos que disputam o pleito no segundo turno:

Capitais

  • Porto Alegre – Nelson Marchezan Júnior (PSDB) X Sebastião Melo (PMDB)

  • Florianópolis – Gean Loureiro (PMDB) X Ângela Amin (PP)

  • Curitiba – Rafael Greca (PMN) X Ney Leprevost (PSD)

  • Rio de Janeiro – Marcelo Crivella (PRB) X Marcelo Freixo (PSOL)

  • Belo Horizonte – João Leite (PSDB) X Alexandre Kalil (PHS)

  • Vitória – Luciano (PPS) X Amaro Neto (SD)

  • Campo Grande – Marquinhos Trad (PSD) X Rose Modesto (PSDB)

  • Cuiabá – Emanuel Pinheiro (PMDB) X Wilson Santos (PSDB)

  • Goiânia – Iris Rezende (PMDB) X Vanderlan (PSB)

  • Aracaju – Edvaldo Nogueira (PCdoB) X Valadares Filho (PSB)

  • Maceió – Rui Palmeira (PSDB) X Cícero Almeida (PMDB)

  • Recife – Geraldo Júlio (PSB) X João Paulo (PT)

  • Fortaleza – Roberto Cláudio (PDT) X Capitão Wagner (PR)

  • São Luís – Edivaldo Holanda Júnior (PDT) X Eduardo Braide (PMN)

  • Macapá – Clécio Vieira (Rede) X Gilvam Borges (PMDB)

  • Belém – Zenaldo Coutinho (PSDB) X Edmilson (PSOL)

  • Manaus – Artur Neto (PSDB) X Marcelo Ramos (PR)

  • Porto Velho – Dr. Hildon (PSDB) X Léo Moraes (PTB)

Outros municípios

  • Caxias do Sul (RS) – Edson Néspolo (PDT) X Daniel Guerra (PRB)

  • Canoas (RS) – Beth Colombo (PRB) X Busato (PTB)

  • Santa Maria (RS) – Valdeci Oliveira (PT) X Pozzobom (PSDB)

  • Blumenau (SC) – Napoleão Bernardes (PSDB) X Jean Kuhlmann (PSD)

  • Joinville (SC) – Udo Döhler (PMDB) X Darci de Matos (PSD)

  • Maringá (PR) – Silvio Barros (PP) X Ulisses Maia (PDT)

  • Ponta Grossa (PR) – Marcelo Rangel (PPS) X Aliel Machado (Rede)

  • Belford Roxo – Waguinho (PMDB) X Dr. Deodalto (DEM)

  • São Gonçalo (RJ) – Dr. José Luiz Nanci (PPS) X Dejorge Patrício (PRB)

  • Duque de Caxias (RJ) – Washington Reis (PMDB) X Dica (PTN)

  • Nova Iguaçu (RJ) – Rogério Lisboa (PR) X Nelson Bornier (PMDB)

  • Niterói (RJ) – Rodrigo Neves (PV) X Felipe Peixoto (PSB)

  • Petrópolis (RJ) – Bernardo Rossi (PMDB) X Rubens Bomtempo (PSB)

  • Volta Redonda (RJ) – Baltazar (PRB) X Samuca Silva (PV)

  • Montes Claros (MG) – Humberto Souto (PPS) X Ruy Muniz (PSB)

  • Contagem (MG) – Carlin Moura (PCdoB) X Alex de Freitas (PSDB)

  • Juiz de Fora (MG) – Bruno Siqueira (PMDB) X Margarida Salomão (PT)

  • Vila Velha (ES) – Max Filho (PSDB) X Neucimar Fraga (PSD)

  • Cariacica (ES) – Marcelo Santos (PMDB) X Juninho (PPS)

  • Serra (ES) – Sérgio Vidigal (PDT) X Audifax (Rede)

  • Bauru (SP) – Clodoaldo Gazzetta (PSD) X Raul Gonçalves (PV)

  • Diadema (SP) – Lauro Michels (PV) X Vaguinho (PRB)

  • Franca (SP) – Sidnei Franco da Rocha (PSDB) X Gilson de Souza (DEM)

  • Guarulhos (SP) – Guti (PSB) X Eli Corrêa Filho (DEM)

  • Guarujá (SP) – Haifa Madi (PPS) X Dr. Valter Suman (PSB)

  • São Bernardo do Campo (SP) – Orlando Morando (PSDB) X Alex Manente (PPS)

  • Santo André (SP) – Paulo Serra (PSDB) X Carlos Grana (PT)

  • Osasco (SP) – Rogério Lins (PTN) X Lapas (PDT)

  • Sorocaba (SP) – José Crespo (DEM) X Raul Marcelo (PSOL)

  • Suzano (SP) – Rodrigo Ashiuchi (PR) X Lacerda (PTB)

  • Ribeirão Preto (SP) – Duarte Nogueira (PSDB) X Ricardo Silva (PDT)

  • Mauá (SP) – Atila Jacomussi (PSB) X Donisete Braga (PT)

  • Jundiaí (SP) – Luiz Fernando Machado (PSDB) X Pedro Bigardi (PSD)

  • Caruaru (PE) – Tony Gel (PMDB) X Raquel Lyra (PSDB)

  • Jaboatão dos Guararapes (PE) – Anderson Ferreira (PR) X Neco (PDT)

  • Olinda (PE) – Antônio Campos (PSB) X Professor Lupércio (SD)

  • Anápolis (GO) – João Gomes (PT) X Roberto do Orion (PTB)

  • Vitória da Conquista (BA) – Herzem Gusmão (PMDB) X Zé Raimundo (PT)

  • Caucaia (CE) – Naumi Amorim (PMB) X Eduardo Pessoa (PSDB)

O título foi alterado às 16h39 para correção de informação. O total de cidades com segundo turno é 57, e não 56, como informado anteriormente 

Edição: Denise Griesinger


Fonte: Brasil

Opinião: Todos estamos em nossas biografias – Denise Fraga


A moça fazia suas compras no supermercado. Tinha errado os botões nas casas do casaco. Sempre me dá pena. Uma pessoa com os botões trocados é quase um ícone de solidão. Arrumou-se, saiu, quiçá passou pela portaria, sem ter ninguém para lhe acusar o erro. Pensei em fazê-lo, mas, mais uma vez, o ímpeto de avisar me veio junto com a dúvida. Sabe-se lá há quanto tempo ela estará assim? Sabe-se lá o quanto anda se sentindo só? O quanto eu poderia feri-la sendo o alheio a confirmar-lhe isto? Lembrei de mim nas ruas de Roma.

Certa vez, viajei sozinha. Quando entrei no quarto do hotel, comecei a chorar. Que ideia tinha sido aquela de ser estrangeira sem ninguém ao meu lado? Tive vontade de me enfiar debaixo das cobertas, de ligar a televisão, mas também não conseguia, era a Cidade Aberta que me esperava lá fora.

Aos poucos fui me acalmando. Tomei café, me agasalhei e saí vacilante, de mapa na mão. Era verdade que eu estava em Roma, mas mais do que toda a beleza daquela cidade, foi a vida em movimento, os sons, as gentes, os carros e lambretas que acolheram a insignificância da minha solidão. Era só existir. Comer, andar e existir. Não existe viagem errada. Viajar é só acordar e existir.

Fui ver o Caravaggio, sentei na Piazza Navona e fiquei horas observando como cada turista queria a foto de sua moedinha sendo lançada à Fontana de Trevi. Eu era uma entre tantos e eles quase pareciam meus. Me ampliei. Serenei. Também é bom, solidão.

Já estava voltando para o hotel, quando percebi, refletido em uma vitrine, o meu estado. Talvez eu tenha andado pelas ruas umas boas três horas daquele jeito. Logo depois do almoço, eu havia entrado numa loja para provar uma bota. Não gostei, devolvi pro vendedor e saí da sapataria com a calça dobrada até quase o joelho, deixando de fora minha berrante meia vermelha. Talvez por vingança da venda frustrada, o homem não se deu ao trabalho de me avisar. Quiçá até riu de mim, alegrando um pouco a hora da sesta que seu patrão não o deixa tirar. O fato é que eu andei bastante tempo por Roma exibindo a minha solidão. Mas, àquela altura, o vendedor e seu silêncio já faziam parte da minha biografia. O porteiro do hotel, a garçonete do almoço, os japoneses e até Caravaggio já eram meus familiares do mundo e a única coisa que eu precisava fazer era abaixar a perna da calça e continuar existindo.

Resolvi avisar a moça de seu casaco no supermercado. Sabe-se lá o quanto ela ama estar sozinha? Sabe-se lá o quanto ela sabe que eu sou dela e ela é minha?

Seu franco sorriso de agradecimento me provou que era bem possível que sim.

Fontana de Trevi, em Roma
Fontana de Trevi, em Roma

Fonte: Opinião

Opinião: Como mudar a lei para os que fazem as leis? – Denise Fraga


Estive na casa dela. Era verdade. Havia papéis colados por toda parte. Da cabeceira da cama ao espelho do banheiro, da tela do computador à coifa da cozinha, transitava-se por um mosaico de termos jurídicos, leis, cláusulas e verbetes que precisavam entrar na sua cabeça. Depois de ser demitida, minha prima despediu a empregada, fez um trato com o marido para que ele arcasse com as despesas da casa e mergulhou alucinada estudando para prestar um concurso público. Faz cursinhos pela internet, frita bifes enumerando leis e lava a roupa da família sem tirar os olhos dos tais papeizinhos. Não vai aos aniversários e quase não sai de casa afogada em um mar de apostilas e post-its. Não tem tido muito resultado: em mais de dois anos dedicados às leis, o máximo que ela conseguiu foi acumular esperança em listas de espera. Virou uma fera nas leis, é craque no assunto a ponto de responder a consultas da família como se fosse uma advogada, faculdade que nunca fez. Mas, a cada novo concurso, só uma nova lista de espera.

Minha prima não procura um novo emprego com medo de ser mandada embora de novo e não consegue parar de estudar e tem pena de jogar fora todo o seu esforço ainda dando metade do seu possível novo salário para alguém fazer o que ela faz mergulhada em seus papeizinhos.

No último domingo, foi seu aniversário. Já tinha tomado umas cervejinhas quando atendeu a meu telefonema. Chorava no telefone. Tinha ido às urnas como todos nós, mas anulado seu voto com raiva.

— Por que eu tenho que provar tanto conhecimento e capacidade para conseguir uma merreca de um empreguinho público e sou obrigada a votar em gente que não tem um mínimo de preparo para o cargo que vai ocupar?!

Apesar da mágoa, da cerveja e de saber que minha prima quer prestar seu concurso muito mais pela estabilidade do serviço público do que por vontade de servir à comunidade, seu desabafo ficou ecoando em meu ouvido. Fiquei pensando no que é ter preparo. Talvez, para entrar na política, o cidadão devesse ter no mínimo uma faculdade. Talvez, porque não podemos negar que existem por aí casos de lideranças natas, pessoas que de tanto se comprometer com o coletivo, lutar nobremente por suas comunidades, acabaram se tornando seus melhores representantes, muitas vezes, sem sequer ter cursado o fundamental. O que nos garantiria candidato razoáveis? Seria o caso destes senhores, com ou sem faculdades, pregarem papeizinhos nas paredes de suas casas para estudar os nossos interesses e prestar um concurso para candidato? Seria uma peneira mínima? Ou seria a própria eleição o concurso em que nós somos os juízes? Estamos, por nossa vez, preparados como juízes?

Sinto uma grande tristeza ao ver o enorme percentual de abstenções e votos nulos no primeiro turno desta eleição. O que fazer com esta falta de fé em quem pode nos representar? Como mudamos as leis para os que fazem as leis? A quem recorremos? Será o caso de perguntar para minha prima?


Fonte: Opinião